Os 85 anos da Aurora

Os 85 anos da Aurora

Um tinto equilibrado, macio, rico de aromas, com taninos finos e ótima presença na boca. O Aurora Millésime Cabernet Sauvignon, da excepcional safra de 2012, talvez seja o melhor vinho já produzido pela Vinícola Aurora, de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. Foi apresentado esta semana em São Paulo, em um grande evento para comemorar os 85 anos de existência da cooperativa, fundada na Serra Gaúcha em 1931. Mais dois rótulos foram lançados com a mesma finalidade, o espumante Aurora Pinto Bandeira Extra Brut 24 meses e o tinto Aurora 85 Anos, edição especial de produção limitada.

Junto com os vinhos, a vinícola, a maior do país, anunciou que liquidou, com quatro anos de antecedência, a dívida pesada negociada em 2000 com um grupo de bancos credores para recuperar a empresa após a grave crise que ameaçou sua sobrevivência em meados da década de 1990. “Com isso, o patrimônio da cooperativa finalmente voltou a pertencer integralmente aos nossos 1.100 associados”, informou o presidente da Aurora, Itacir Pedro Pozza. Virada a página, a vinícola tem condições de dar novos passos em direção ao futuro, consolidando sua evolução nos últimos anos.

 

Vinhos mostram melhoria

O Aurora Millésime Cabernet Sauvignon 2012 é um marco importante nesta caminhada em busca da qualidade. A safra é considerada uma das melAurora Millesime 2012hores da década na Serra Gaúcha, pois teve verão quente, pouca chuva, muitas horas de insolação e noites de temperatura amena. Cabernet Sauvignon 100%, com estágio de 12 meses em barricas de carvalho novo francês e americano, o tinto lembra ao nariz fruta madura a ameixa e cereja, em meio a notas de cacau, tabaco e especiarias. Volumoso na boca, suculento, apresenta acidez firme, taninos maduros, um conjunto fino e equilibrado, bom para acompanhar comida (13%). Custa em média R$ 92 (Nota 91/100). As garrafas têm como enfeite um pedacinho de galho de parreira.

“É o vinho que representa o que de melhor podemos fazer na Aurora, fruto de um forte trabalho no campo e de investimentos em tecnologia”, ressalta o enólogo Flávio Zílio, responsável pela equipe técnica da cooperativa. O Millésime Cabernet Sauvignon é produzido apenas em grandes colheitas. Foram oito edições até agora – 1991, 1999, 2004, 2005, 2008, 2009, 2011 e 2012.

Os dois rótulos comemorativos também são bem feitos. O Aurora 85 Anos, vendido apenas pela loja da vinícola, corte de Cabernet Vinho 85 anos (2)Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot, amadurecido por 10 meses em carvalho novo e usado, é untuoso, macio e redondo. Tem muita fruta madura (Nota 90). Já o espumante Aurora Pinto Bandeira Extra Brut 24 Meses segue proposta semelhante à de um bom lançamento anterior, o Aurora Pinto Bandeira Extra Brut 12 Meses, referência ao tempo em que o vinho permanece em contato com as borras na garrafa, para ganhar volume e complexidade. Também como o rótulo menciona, as uvas vêm dos vinhedos de Pinto Bandeira, zona promissora, com Indicação de Procedência. No caso do 24 Meses, é um lote de 60% Chardonnay, 30% Pinot Noir e 10% Riesling Itálico. Cítrico, cremoso, seco, sem agressividade (Nota 89).

 

História de superação

A Cooperativa Vinícola Aurora faz parte da história da produção de vinhos no Brasil. Foi criada em 1931, por 16 famílias de descendentes de imigrantes italianos radicados em Bento Gonçalves. Durante muito tempo a Aurora dominou o mercado brasileiro. Em 1979 começou a importar mudas de cepas vitis vinifera da Europa e dos Estados Unidos, aclimatando-as em seu Centro Tecnológico de Pinto Bandeira, então distrito de Bento Gonçalves e hoje município independente, o que possibilitou às famílias associadas começar a renovar os vinhedos, com a substituição das uvas híbridas predominantes na Serra Gaúcha.DSCN3187

Atualmente, a cooperativa reúne 1.100 famílias, que juntas possuem cerca de 2,8 mil hectares de vinhedos e colhem 65 mil hões de quilos de uvas por ano, entre viníferas e híbridas. A vinícola produz anualmente 50 milhões de litros de vinhos e derivados. O portfolio oferece 13 marcas e mais de 200 itens diferentes. Há rótulos para todas as faixas de consumo, desde linhas de nível superior, como Aurora Varietais, Reserva e Pequenas Partilhas, até os intermediários Clos de Nobles e Conde de Foucauld e os popularíssimos Sangue de Boi e Country Wine.

Ao longo de sua história, a Aurora viveu momentos de superação. Na década de 1950, por exemplo, os associados precisaram superar enorme prejuízo, quando naufragou um navio pertencente à cooperativa, carregado de vinho. Nos anos 1970, um grande incêndio destruiu os armazéns da Aurora no centro de Bento Gonçalves. “O calor fez estourar as pipas de 100 mil litros e o vinho descia como um rio pelas ruas da cidade”, lembra o presidente Itacir Pedro Pozza.

O pior aconteceu nas décadas seguintes. Nos anos 1980, a Aurora conquistou uma fatia do mercado dos EUA com um vinho até então desconhecido aqui, o Marcus James. Parecia uma tacada de mestre, mas seus dirigentes tomaram decisões arriscadas, que se tornaram um pesadelo para a cooperativa. O projeto surgiu em 1982, em parceria com a United Liquors, de Boston, Massachussets, que depois vendeu o negócio para a Canandaigua Wine Company, do Estado de New York, hoje integrante do grupo Constellation Brands.

A megaoperação levou a Aurora a se modernizar e a se expandir, para dar conta dos novos produtos. Começou vendendo 220 mil caixas de varietais Marcus James por ano nos Estados Unidos e por volta de 1997 chegou à incrível marca de 1,1 milhão de caixas. As dificuldades vieram quando os dirigentes tomaram medidas mal planejadas, entre outras coisas para manter os preços baixos. Os erros se sucederam e, no final, a Aurora perdeu até o domínio sobre a marca Marcus James no mercado americano, que agora pertence ao antigo importador. A Constellation Brands encomenda os rótulos Marcus James a uma cooperativa da Argentina. Há alguns anos, o grupo americano divulgava na imprensa local que Marcus James, “é a marca de vinhos argentinos número um nos Estados Unidos”.

Testemunhas da época observam que, além disso, uma administração perdulária fez a Aurora mergulhar em dívidas também no Brasil, quase levando à miséria os pequenos agricultores cooperados, que não tinham outro meio de vida. A cooperativa só não chegou à falência porque o principal credor, o Banco do Brasil, foi levado pelo govern
o a intervir, para evitar uma grave crise social no Estado.

Vinicola Aurora - Cave Prive - Creditos Roali Majola

A recuperação

A fase crítica foi superada com esforço e uma nova política de austeridade. Em 2000 a Aurora conseguiu equacionar sua dívida, com pagamento atrelado a percentuais do faturamento, e voltou a se preocupar com o principal, a produção de bons vinhos. O sucessivo trabalho de diversas equipes de dirigentes foi concluído pela atual diretoria, que conseguiu quitar antecipadamente as parcelas que venceriam até 2020.

A vinícola tem ganho muitos prêmios em concursos aqui e no exterior, pela qualidade de seus vinhos – muitos deles obtidos pelos rótulos Marcus James, comercializados no Brasil. Segundo o diretor-geral da empresa, Hermínio Ficagna, em 2015 a Aurora registrou faturamento de R$ 425 milhões, o melhor já alcançado em sua história, com um crescimento de 28% em relação ao ano anterior. Ficaram realmente para trás os tempos de crise.



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