Com 100 anos, a Casa Poças se renova e apresenta vinhos de nível superior

Com 100 anos, a Casa Poças se renova e apresenta vinhos de nível superior

Pedro Pintão e o Porto Poças 1918

Uma vinícola com mais de 100 anos certamente tem muita história para contar. É o caso da Casa Poças, em mãos da mesma família desde 1918, quando foi fundada na cidade do Porto, no norte de Portugal. Dias atrás, esteve no Brasil para promover seus vinhos, e lembrar o centenário da empresa, o sócio-diretor Pedro Poças Pintão.

Entre os destaques, ele apresentou novos rótulos da gama alta da empresa – Poças Branco da Ribeira e o tinto Símbolo – e o inigualável Poças 1918, um Vinho do Porto Muito Velho, produzido especialmente para celebrar a data de fundação.

A Casa Poças Júnior (seu nome oficial) foi criada por Manoel Domingues Poças Júnior pouco antes do armistício que marcou o fim da Primeira Guerra Mundial, assinado em novembro de 1918. Manoel abriu a empresa, com um tio, para vender aguardente vínica a grandes produtores de Vinho do Porto. Mais tarde, passou a dedicar-se à comercialização de Porto. Na década de 1980 a família começou a produzir também vinhos tranquilos.

Os vinhos provados na visita a São Paulo

Há muito a empresa está presente no Brasil, com as marcas do Porto Poças, Pousada e Porto Seguro (DOC Porto) e de brancos e tintos da DOC Douro (vinhos tranquilos), como o Coroa D’Ouro, Poças Reserva e Vale de Cavalos, distribuídos atualmente no país pela importadora Cantu. A vinícola, comandada hoje por representantes da terceira e quarta gerações de descendentes do fundador, possui 100 hectares de vinhas, distribuídas por três propriedades no Douro.

Entrega por ano ao mercado 2 milhões de garrafas – 2/3 de Porto e 1/3 de vinhos tranquilos. “A nossa meta é no futuro chegar a meio a meio de vinhos das DOC Porto e Douro”, disse Pedro Poças Pintão, bisneto de Manoel Poças Júnior, na visita a São Paulo.

Desde 2014 a Poças estabelece uma parceria com o enólogo francês Hubert de Boüard, coproprietário dos renomados Châteaux Angélus e La Fleur de Boüard, de Bordeaux, que ajudou a elevar o nível dos vinhos DOC Douro da empresa.

 

História

A família Poças: 3a e 4a gerações no comando

A trajetória da Casa Poças Júnior reflete a saga do Vinho do Porto nas últimas décadas, com suas dificuldades e sucessos. Manoel Domingues Poças Júnior, filho de um agricultor, começou a trabalhar aos 12 anos como mensageiro em uma companhia de seguros da cidade do Porto. Os contatos com as empresas exportadoras de vinho foram úteis quando, aos 22 anos, conseguiu novo emprego, na Casa Ferreira.

A seguir, veio um período de recessão, com a Primeira Grande Guerra. Ao final das lutas, o comércio se reergueu e Manoel percebeu a oportunidade de entrar no negócio do vinho. Com 30 anos na época, ele abriu, com um tio, a empresa Poças & Comandita, para vender brandies a grandes produtores de Vinho do Porto. Como se sabe, o Porto é um vinho fortificado, isto é, recebe a adição de aguardente vínica, que interrompe a fermentação e preserva o açúcar natural das uvas.

A atividade da empresa mudou abruptamente em 1934, quando o governo da época, sob a mão forte de António de Oliveira Salazar, concedeu a um organismo oficial o monopólio do comércio de aguardente para beneficiar os mostos do Douro. A partir daí, Manoel Poças Júnior, já dono sozinho da firma, dedicou-se exclusivamente ao Vinho do Porto. Ele estabeleceu a sede da companhia na Rua Visconde das Devesas, em Vila Nova de Gaia, onde está até agora.

A Quinta das Quartas, no Baixo Corgo

Na década seguinte a empresa cresceu, com a incorporação na sociedade dos filhos e de dois irmãos de Manoel Poças Júnior. Em 1959, outro marco importante, a entrada da terceira geração da família, representada então pelos primos Jorge e Manoel Joaquim Poças Pintão. Com eles, a casa tomou novos rumos, expandiu-se no mercado mundial e se preparou para o futuro.

Manoel Joaquim Poças Pintão atuou na direção comercial da empresa até se reformar, alguns anos atrás. Culto, gentil, fez grandes amigos em nosso país. Tem dedicado tempo a outras paixões – música, literatura, cultura do Porto. Nesse período escreveu, por exemplo, com o especialista brasileiro Carlos Cabral, o monumental “Dicionário Ilustrado do Vinho do Porto” (Editora de Cultura, São Paulo, 2011). Ao se retirar, foi substituído pelo filho Pedro Poças Pintão, que completa 42 anos agora em novembro.

 

As três quintas

As três propriedades, bem situadas no Douro

A base dos vinhos Poças se assenta nas três propriedades que a família possui. A primeira, e menor, é a Quinta das Quartas, situada em Fontelas, perto de Peso da Régua, no Baixo Corgo, a zona de entrada na Região Demarcada do Douro. Manoel Poças Júnior a recebeu de um cliente como pagamento de dívidas, em 1932. Tem 6 hectares, sendo 2,5 ha. de vinha e abriga o centro de vinificação da empresa e sua grande cave de envelhecimento de Vinhos do Porto.

Comprada em 1988, já pela nova geração, a Quinta de Vale de Cavalos se localiza no vale da Teja, em Numão, concelho de Vila Nova de Foz Côa, zona de clima escaldante no Douro Superior, no rumo da fronteira com a Espanha. Tem 51 hectares, divididos nas parcelas Ribeira Teja, Catapereiro, Tanque e Zoc. A proximidade de uma represa ajuda enfrentar as secas frequentes, vencidas com moderno sistema de irrigação gota-a-gota.

A terceira propriedade é a Quinta de Santa Bárbara, com 33 hectares de vinha, comprada em 1999 em Ervedosa do Douro, no Cima Corgo.

 

Vintage e vinhos tranquilos

Quinta de Santa Bárbara, no Cima Corgo

Durante muito tempo, a Poças foi conhecida principalmente pela qualidade de seus Tawnies. Manoel Poças Júnior achava que era o melhor que sabiam fazer. “Vintage é para as firmas inglesas”, dizia ele, referindo-se à categoria mais nobre do Vinho do Porto.

Os netos Manoel Joaquim e Jorge Poças Pintão não concordavam, acreditavam no potencial de suas uvas. Por insistência deles, o avô cedeu e em 1962 foi lançado o primeiro Poças Vintage, um marco na busca de vinhos de qualidade da empresa.

A propósito, Pedro Poças Pintão conta que, quando o bisavô morreu, em 1975, a família encontrou em sua adega particular coleções inteiras com as melhores safras de Porto Vintage da época: “Ele falava que não devíamos produzir, mas guardava todas essas preciosidades”.

Quinta de Vale de Cavalos, no Douro Superior

Outra mudança feita pela nova geração da família, desta vez por inspiração de Jorge Manuel Pintão, o enólogo da vinícola, foi a elaboração de vinhos tranquilos. Poças tornou-se um dos primeiros produtores a investir na produção de rótulos DOC Douro, apresentando em 1990 o tinto Coroa d’Ouro.

Como dito anteriormente, a empresa conta agora com a consultoria do enólogo Hubert de Boüard, que alia a experiência francesa à cultura duriense da equipe de Jorge. A parceria, além de ter contribuído para melhorar a qualidade dos vinhos tranquilos da casa, certamente ajudou a chamar a atenção do mercado internacional para os rótulos Poças.

Pedro Poças Pintão ressalta que a família pretende aumentar a produção de vinhos DOC Douro, que conquistam sempre mais espaço em todo o mundo. Mas o futuro faz prever novos desafios para a Região do Douro. Segundo ele, os dois mais importantes são vencer a escassez de mão-de-obra para os trabalhos na lavoura e enfrentar as condições climáticas impostas pelo aquecimento global.

 

A prova em São Paulo

Todas essas histórias vieram à tona durante almoço realizado em São Paulo na segunda semana de outubro, com a presença do sócio-diretor Pedro. Ele falou das comemorações do centenário da empresa, iniciadas no ano passado, e apresentou quatro vinhos especiais, aqui avaliados. Especialmente os dois primeiros, da DOC Douro, mostram que nos últimos anos o portfólio da casa teve um upgrade, oferecendo rótulos de nível superior.

 

Poças Branco da Ribeira 2017

Casa Poças Júnior – Douro – Portugal – Cantu – R$ 600 – Nota 93

Branco notável, volumoso e dotado de grande mineralidade, mescla 70% Arinto e 30% Códega, com uvas da Quinta de Vale de Cavalos, no Douro Superior. Uma grata surpresa. O ano de 2017 foi extremamente quente, basta lembrar os grandes incêndios que assolaram Portugal entre junho e outubro e provocaram mortes no país. Por causa do calor as uvas amadureceram mais cedo. No Douro, a vindima começou em agosto, antes que o normal. Os produtores dizem que, se estivessem preparados, teriam iniciado a colheita já em julho. Apesar dos desafios, a Poças conseguiu elaborar este branco elegante, com muito frescor, baixando rendimentos e mantendo controle rigoroso das parcelas. Traz ao nariz damasco e cítricos, além de toques florais e de especiarias. A madeira está presente, integrada. Seco, tem textura macia, ótima acidez, certamente proporcionada pela Arinto, e equilíbrio. O final, longo, mostra algo de limão. Delicioso, tem tudo para guarda (13,5%).

 

Símbolo 2015

Casa Poças Júnior – Douro – Portugal – Cantu – R$ 450 – Nota 93

Tinto opulento, a partir de uvas de vinhas velhas plantadas na Quinta de Santa Bárbara, situada em Ervedosa do Douro, no Cima Corgo. No lote há Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca e outras. Depois do amadurecimento por 18 meses em barricas novas de carvalho francês, passou mais 12 meses em garrafa. Beneficiou-se, sem dúvida, das boas condições do ano – 2015 foi muito equilibrado, deixou saudades, dizem os produtores – mas mostra também o cuidado da equipe de enologia comandada por Jorge Manuel Pintão. Nos aromas, há framboesa, cassis, especiarias e notas florais, que recordam esteva, planta nativa do Douro. Na boca mostra ser típico da região, tem estrutura e corpo, mas taninos maduros, macios e bom equilíbrio. Um vinho elegante, que deve melhorar na adega (14,3%).

 

Poças Vintage 2017

Casa Poças Júnior – Douro – Portugal – Cantu – R$ 600 – Nota 94

Apesar de mais conhecida por seus Tawnies com idade, a Poças também produz Vintage de qualidade. Como se sabe, Vintage é o Porto elaborado apenas em anos especiais, com uvas de uma só colheita. Sem amadurecimento em madeira, é obrigatoriamente engarrafado entre o segundo e o terceiro ano após a vindima e envelhece no ambiente redutivo. O 2017 é um vinho retinto, com muita tipicidade de aromas, em que aparecem notas florais, de esteva, planta nativa do Douro, além de licor de cacau e cassis. A parte aromática se destaca, mas a boca não fica atrás. Denso, amplo, mostra equilíbrio e álcool bem integrado. Sedoso, doce (123 gr. de açúcar por l), tem muito boa acidez, mesclando força e elegância. No geral, 2017, apesar do forte calor, rendeu excelentes Portos e foi considerado Ano Vintage, isto é, quando a maioria das casas solicita e tem aprovação de seus vinhos como Vintage (19,3%).

 

Poças 1918

Casa Poças Júnior – Douro – Portugal – Nota 97

Vinho do Porto Muito Velho é o nome dado a Tawnies excepcionais que permaneceram por décadas em cascos de madeira no silêncio das caves e chegam ao mercado, geralmente em edições diminutas, para poucos e privilegiados consumidores. Expressam o que só o tempo pode proporcionar a este nobre vinho português. É um fenômeno recente. Antes, na maioria das vezes eram incorporados aos lotes de Tawnies com indicação de idade, quase sempre os 30 ou 40 Anos. Nos últimos tempos várias casas descobriram em suas adegas, ou compraram de terceiros, algumas barricas antigas com um vinho tão bom que, em vez de loteá-lo, decidiram engarrafá-lo sozinho, com o rótulo Very Old Tawny Port. O Poças 1918 veio de uma pequena partida de vinho com muita idade, que fazia parte do espólio da Quinta das Quartas, a propriedade do Baixo Corgo dada em 1932 a Manoel Domingues Poças Júnior como pagamento de uma dívida. Estava guardado em cascos de 725 litros. Portanto, não é um Vintage, nem um Colheita daquele ano, e sim um blend de vinhos com mais de 100 anos. Um Tawny velho. Foi engarrafado especialmente para comemorar os 100 anos da Poças Júnior e surpreende pela vivacidade. A cor topázio brilhante indica a antiguidade. Apresenta grande complexidade ao nariz, com aromas intensos de frutas secas, a avelã, de caramelo, canela, melaço. Ainda guarda a acidez, é amplo na boca, untuoso, com álcool integrado. É doce, mas como mostra muito equilíbrio, não se nota que tem mais de 200 gr de açúcar por litro, o dobro de um Porto normal. Uma obra de arte, presente generoso da natureza. Dele foram colocadas no mercado somente 100 unidades, oferecidas em elegantes garrafas de cristal produzidas pela Vista Alegre, com desenho inspirado na antiga licoreira do fundador da Poças. O preço acompanha a raridade – aqui, quem conseguir comprar uma garrafa, em bela caixa de madeira também artesanal, vai pagar R$ 40 mil (19,3%).

 

 

 

 


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