José Maria da Fonseca busca equilíbrio entre tradição e modernidade

José Maria da Fonseca busca equilíbrio entre tradição e modernidade

A prova virtual/presencial: 11 vinhos

O consumidor atual pede tintos e brancos frutados, mas uma parcela de conhecedores mantém a admiração por vinhos clássicos, com mais complexidade. A equipe de enologia da centenária José Maria da Fonseca, uma das maiores vinícolas portuguesas, sediada na Península de Setúbal, procura atender a todos. Oferece, de um lado, um campeão de vendas como o Periquita. De outro, tintos como se fazia antigamente, como o José de Souza Mayor ou o monumental branco doce Moscatel de Setúbal Alambre 20 Anos.

Entre estas duas linhas, tradição e modernidade, trabalha o enólogo Domingos Soares Franco, que comanda a empresa junto com o irmão António Soares Franco. Esta semana, em tempos de pandemia, Domingos conduziu uma degustação especial dos vinhos da José Maria da Fonseca para a imprensa especializada de São Paulo – ele em Portugal, parte dos jornalistas em casa e outros presencialmente. “Não posso deixar de atender o gosto do consumidor médio”, disse Domingos. Ao mesmo tempo, não escondeu que, pessoalmente, prefere os clássicos.

A sétima e sexta geração da família Soares Franco

A José Maria da Fonseca surgiu por volta de 1834 e se mantém até hoje nas mãos da família. Também como empresa, busca se modernizar, sem perder as raízes. António Soares Franco, o presidente, e seu irmão Domingos, sexta geração dos descendentes do fundador, deram grande impulso ao grupo e agora começam a deixar espaço para a sétima geração, na qual se destacam António Maria – que participou da degustação virtual desta semana –, Sofia e Francisco Soares Franco.

A casa possui 650 hectares de vinhas em três regiões portuguesas. A maior parte se situa na Península de Setúbal, ao sul de Lisboa, em seis propriedades – Herdade da Vinha Grande de Algeruz, Quinta das Faias, Quinta de Camarate, Vinha Pasmados, Quinta dos Cistus e Quinta dos Foios.

No vizinho Alentejo, a família comprou em 1986 a histórica Casa Agrícola José de Sousa Rosado Fernandes, em Reguengos de Monsaraz, tornando-se assim dona da Herdade do Monte da Ribeira, com 72 ha de vinhedos. Por fim, no Douro conta com 30 ha. da Quinta de Mós.

No total, o grupo produz cerca de 16 milhões de garrafas de vinho por ano. Além dos Moscateis de Setúbal e da linha Periquita, apresenta outras marcas de sucesso, como os populares Pasmados, Montado, Camarate e Albis; os premium da Coleção Privada DSF e Hexagon; e a série alentejana José de Souza.

 

A história

A sede histórica em Azeitão

Com 186 anos de existência, a José Maria da Fonseca é a mais antiga vinícola familiar portuguesa. O fundador se mostrou um visionário. Natural de Vilar Seco, concelho de Nelas, no Dão, José Maria da Fonseca completou estudos de Matemática na Universidade de Coimbra e depois seguiu os passos do pai, que tinha negócios na região de Lisboa, onde fornecia equipamentos e uniformes aos exércitos da Inglaterra e Portugal durante a guerra peninsular.

Aos 30 anos de idade, José Maria da Fonseca decidiu se dedicar a uma propriedade agrícola ao sul do rio Tejo, na região da Serra da Arrábida. Fixou-se em Vila Nogueira de Azeitão e ali instalou sua empresa, dedicada aos negócios do vinho. Seu primeiro sucesso de vendas foi o branco doce Moscatel de Setúbal, lançado em 1849.

A fama da casa se consolidou com o tinto Periquita, produzido com uvas provenientes da propriedade Cova da Periquita, adquirida por volta de 1846. A vinha foi plantada com mudas que José Maria da Fonseca havia trazido da Estremadura. Logo os vizinhos pediam a ele varas da casta, aquela da Periquita. Com o tempo, a própria uva passou a ser chamada de Periquita e espalhou-se por outras regiões, como o Alentejo.

Há alguns anos, a empresa foi aos tribunais internacionais e conseguiu desfazer a ambiguidade entre o nome do vinho e da uva. A Corte de Justiça da União Europeia, em Bruxelas, onde são resolvidas pendências comerciais, decidiu em 1999 que Periquita é marca exclusiva da José Maria da Fonseca; a casta passou a se chamar inicialmente Castelão Francês e agora, apenas Castelão.

Adega do Periquita: 1850

Durante muito tempo a família Soares Franco acreditou que seu tinto famoso surgiu em 1880. A pista de que dispunha eram as garrafas mais antigas existentes na adega de Azeitão, com esta data. Há alguns anos, no entanto, pesquisadores da Universidade de Lisboa descobriram documentos comprovando que o Periquita, na verdade, nasceu muito antes do que se pensava, em 1850. Portanto, em 2020 o tinto completou 170 anos.

Até as primeiras décadas do século XX, a José Maria da Fonseca tinha no Brasil seu grande mercado. Vendia aqui mais de 1 milhão de garrafas por ano, cerca de 90% de tudo o que produzia. Sofreu um duplo baque, primeiro com a crise econômica que derrubou os mercados na década de 1930 e depois, com uma decisão do governo Getúlio Vargas, que bloqueou as importações.

A vinícola se viu obrigada a buscar novos países compradores e, curiosamente, conseguiu se levantar graças aos vinhos rosé, leves e frutados. Primeiro, fez sucesso em Portugal com o rosado Faísca, apresentado em 1937. Depois, conquistou o mercado dos Estados Unidos em 1944 com o rosé Lancers, adocicado e com um pouco de gás.  Hoje, os vinhos da empresa estão presentes em 70 países.

 

Novo e antigo

O centro de vinificação, um dos maiores de Portugal

Na sede de Vila Nogueira de Azeitão tradição e modernidade convivem não apenas nos vinhos, e sim também nas construções. Em 2001 a família Soares Franco inaugurou novo e imenso centro de vinificação, com capacidade para processar 6,5 milhões de litros de mosto. Na área coberta de 9 mil m2 estão dispostas, lado a lado, 513 cubas de aço inox, de diversos tamanhos, formando quatro linhas completas de trabalho. A operação é quase totalmente controlada por computador. É uma das maiores e mais modernas adegas da Europa. Domingos Soares Franco mandou fazer também lagares de inox, para a pisa a pé ou por robôs, para elaboração de vinhos especiais, em pequenas quantidades.

Mas o passado permanece vivo no prédio histórico da José Maria da Fonseca, onde as antigas caves continuam em uso. A linda Adega do Periquita tem 800 mil litros do tinto amadurecendo em grandes tonéis de mogno e em barricas de carvalho (francês e americano) usados. Na Adega do Moscatel, cujas paredes foram escurecidas pelo tempo, 400 mil garrafas repousam em um ambiente respeitoso, que parece um monastério medieval. O clima é acentuado pela luz difusa e pela música de fundo, o canto gregoriano.

Estão lá Moscatéis velhos, alguns com mais de 100 anos, que entram no lote para educar vinhos mais novos, como no caso do Alambre 20 Anos – lembrando que a indicação de idade é dada sempre pelo vinho mais novo. Ao fundo da cave fica a “Frasqueira da Família”, onde se guardam preciosidades desde 1880, exclusividade da família Soares Franco.

 

Setúbal

As vinhas e a paisagem diversificada

A Península de Setúbal ocupa o estuário do rio Tejo ao sul de Lisboa, e está ligada à capital por duas pontes. Oferece muitos atrativos para os turistas, ótimos queijos de ovelha em Azeitão e vinhos de muita classe. Nenhuma outra região de Portugal tem tantas diferenças geográficas, com a existência de planícies, serras e encostas, além dos Rios Sado e Tejo e a proximidade com o Oceano Atlântico. Extensa em território, tem clima mediterrânico – tempo quente e seco no verão e relativamente frio e chuvoso no inverno.

Os vinhos da região vinícola de Setúbal podem ter três diferentes classificações. Os tintos e brancos de mesa são abrigados na Denominação de Origem (DO) Palmela – no caso dos tintos, devem conter pelo menos 67% da uva Castelão. Os brancos doces, fortificados (recebem adição de aguardente vínica), produzidos com as castas Moscatel de Alexandria e Moscatel Roxo, têm apelação própria, a DO Moscatel de Setúbal. A propósito, é a segunda região demarcada mais antiga de Portugal, tendo sido delimitada em 1907 (atrás somente da região do Vinho do Porto, de 1756). Já para os rótulos regionais há a IG (Indicação Geográfica) Península de Setúbal.

 

Os vinhos

Periquita: linha completa

A Castelão está presente em várias regiões portuguesas, mas tem seu local de predileção nos solos quentes e arenosos de Setúbal. É a base do Periquita, o vinho emblemático da José Maria da Fonseca. Antes era um único tinto e hoje, uma linha completa. Além do vinho básico, a equipe de Domingos Soares Franco elabora o Periquita Reserva e o Periquita Superyor.

Com o tempo, Domingos foi adaptando o Periquita às mudanças de gosto do consumidor internacional. Antes Castelão 100%, recebeu no início dos anos 2000 um toque de Trincadeira e Aragonês. É um tinto frutado e com algum açúcar residual, o que o torna fácil de beber.

Mas o irrequieto Domingos, o primeiro enólogo português formado pela reconhecida Universidade de Davis, na Califórnia, queria apresentar também um vinho como se fazia no passado e relançou o Periquita Clássico. Há 50 anos, as uvas eram fermentadas com engaço e a temperatura, pouco controlada. Davam tintos mais rústicos, de taninos firmes, feitos para durar muitos anos.

Domingos retomou o estilo do mesmo Periquita Clássico que produzia nas décadas de 1990 e 2000, apenas em anos excepcionais – na época, ele entregou ao mercado os tintos de 1992, 1994, 1995, 1999, 2001 e 2004. A primeira edição da leva atual é da colheita de 2014, que estagiou por 24 meses em barricas usadas de carvalho. Já está no mercado português e deve chegar aqui nas próximas semanas.

O branco doce Moscatel de Setúbal é outra criação de José Maria da Fonseca. O primeiro, como mencionado acima, surgiu em 1849 e o vinho se mantém até hoje entre os ex-libris da casa. Como se sabe, a família Moscatel é formada por diversas variedades, que têm como traço comum o caráter floral e o sabor típicos. Um ditado antigo diz que a Moscatel é a única uva que tem gosto de uva! Pode dar brancos secos ou doces e espumantes.

A uva Moscatel de Setúbal

A maior parte dos vinhos da DO Moscatel de Setúbal é produzida com a Moscatel de Alexandria, ali chamada de Moscatel de Setúbal (Moscatel Graúdo), sempre vindimada bem madura. A fermentação é interrompida com a adição de aguardente vínica, o que confere, em média, os 18º de álcool e a doçura que lhe são caraterísticos. Após o período de estágio em pipas ou tonéis usados é que aparecem a cor topázio, o aroma a flor de laranjeira – entremeado com o perfume de frutos secos –, a textura licorosa e o sabor intenso. São vinhos muito longevos.

Há também uma pequena parcela de vinhos na DO elaborados com a Moscatel Roxo, considerada mutação genética da Moscatel de Setúbal. Similar à branca, tem aparência diferente, pela cor roxa, além de aroma e paladar próprios. Variedade rara, quase entrou em extinção e foi resgatada por Fernando Soares Franco, pai de António e Domingos. A Moscatel Roxo é encontrada na Quinta dos Foios, pequena propriedade de Azeitão pertencente a Dª Isabel Menezes, acionista da José Maria da Fonseca. Ali há uma vinha de 2,2 hectares com a variedade, recuperada em 1991.

Na adega José de Sousa 114 talhas de barro

Fora da Península de Setúbal, a José Maria da Fonseca produz tintos diferenciados no Alentejo, mantendo a tradição da Casa Agrícola José de Sousa Rosado Fernandes, existente pelo menos desde 1878 em Reguengos de Monsaraz. Ao adquirir a empresa, em 1986, a família Soares Franco assumiu a Herdade do Monte da Ribeira. Em seus 72 ha. as parcelas de vinha foram plantadas em anos diferentes, com as castas predominantes na região – Trincadeira, Aragonês e Grand Noir, uva de origem francesa, praticamente cultivada hoje apenas no Alentejo.

Uma das primeiras providências da família Soares Franco foi fazer a reconversão da vinha, terminada em 2002, que incluiu a completa separação por castas. Um destaque foi o trabalho realizado em 20 ha., reconvertidos por seleção clonal de Trincadeira e Aragonês, raridade na viticultura alentejana.

Outra preciosidade deixada pela casa José de Sousa foi sua adega histórica, que sempre utilizou ânforas de barro para a vinificação, prática alentejana herdada dos romanos. Domingos conta que quando a vinícola foi comprada, encontrou lá 20 ânforas de barro e sinais no chão de que o espaço já conteve mais de 100. Por isso era chamada de Adega dos Potes.

A construção foi inteiramente recuperada e conta com hoje com 114 ânforas de barro. Elas ficam na parte antiga da adega, curiosamente instalada 3 metros abaixo do nível do solo, para manter uma temperatura naturalmente fresca durante todo o ano. Ali também há dois lagares para pisa a pé. Já a ala nova do projeto conta com 44 tanques de inox e toda a tecnologia moderna para a vinificação de tintos.

Método de fermentação ancestral

Nas talhas também é adotado um método de fermentação ancestral. As uvas tintas são pisadas a pé e desengaçadas a mão numa mesa formada por ripas estreitas, chamada “mesa de ripanço”. Depois, uma pequena parte do mosto, das películas e do engaço é fermentada nas talhas de barro, e outra em lagares. O restante é fermentado em cubas de inox. O uso das talhas confere maciez e uma textura especial aos tintos.

A José Maria da Fonseca oferece ao mercado atualmente 30 marcas diferentes de vinhos, das várias apelações em que atua. No Brasil, a linha Periquita, que inclui alguns dos rótulos portugueses mais vendidos no país, é distribuída pela importadora Interfood. Os outros rótulos do portfólio são comercializados pela Decanter.

Na degustação virtual/presencial realizada esta semana em São Paulo, o enólogo Domingos Soares Franco e seu sobrinho António Maria Soares Franco, responsável pela área de Marketing e Vendas, apresentaram 11 vinhos, que expressam os principais estilos da empresa. Destacamos aqui seis deles, entre os tintos, brancos e Moscatéis de Setúbal produzidos por esta casa centenária.

 

Albis 2017

José Maria da Fonseca – Setúbal – Portugal – Decanter – R$ 129,80 – Nota 90

Branco de mesa aromático, seco e leve, produzido com Moscatel de Alexandria, temperada por Arinto, que agrega acidez. Sem madeira, nos aromas aparecem cítricos, manga, algo de maçã verde e boas notas minerais. Na boca a fruta se mantém, mostra estrutura, equilíbrio e um final longo, elegante, com muito bom frescor. Gostoso como aperitivo ou para acompanhar pratos leves (12,4%).

 

Periquita Tinto 2018

José Maria da Fonseca – Setúbal – Portugal – Interfood – R$ 80,90 – Nota 89

O tinto emblemático criado por José Maria da Fonseca em 1850 é um dos rótulos portugueses mais populares no Brasil, encontrado em supermercados, empórios e restaurantes de todo tipo. Sempre confiável, é o chamado vinho que não tem erro. Produzido com uvas da Herdade da Vinha Grande de Algeruz, é lote de 72% Castelão, 23% Trincadeira e 5% Aragonês, com algum açúcar residual (7,5 gr/l), que o torna fácil de beber. Fica por seis meses em barricas novas de carvalho francês e americano. Frutado, lembra ao nariz framboesa e amora. É redondo e macio, tem boa acidez e persistência média. Dele são produzidas em média 1,2 milhão de garrafas por ano (13%).

 

Ripanço 2017
José Maria da Fonseca – Alentejo – Portugal – Decanter – R$ 139,30 – Nota 90

Tinto macio e gostoso, produzido pela equipe do enólogo Domingos Soares Franco na adega José de Sousa Rosado Fernandes, em Reguengos de Monsaraz, com 35% Aragonês, 30% Trincadeira, 25% Syrah e 10% Alicante Bouschet. Vinificado nos tanques de inox, repousa por 6 meses em barricas novas de carvalho francês e americano. Recebe este nome porque na elaboração de parte do lote é utilizada a técnica ancestral do ripanço, que já era conhecida pelos romanos e permanece até hoje no Alentejo para o desengace manual das uvas. Os cachos são esfregados em uma mesa feita de ripas de madeira, chamada mesa de ripanço. Com o movimento, os bagos caem embaixo e os engaços, aqueles cabinhos que prendem as uvas, ficam soltos na superfície, de onde são facilmente retirados. O desengace manual evita a extração dos taninos duros presentes nos cabinhos e deixa o vinho mais aveludado. No tinto, os aromas lembram fruta madura, como jaboticaba e figo, em meio a notas florais e de baunilha. Na boca é equilibrado, com taninos doces, em corpo médio. Um vinho diferente, com boa acidez e frescor (14%).

 

Periquita Reserva 2018

José Maria da Fonseca – Setúbal – Portugal – Interfood – R$ 148,90 – Nota 91

O Reserva é um dos rótulos de maior sucesso da linha Periquita, especialmente nos exigentes mercados do norte da Europa. Dele a empresa entrega nada menos do que 1,6 milhão de garrafas por ano. Vem de 56% Castelão, 22% Touriga Nacional e 22% Touriga Franca, dos solos arenosos da Herdade da Vinha Grande de Algeruz.

Com estágio de 8 meses em barricas novas e usadas de carvalho francês e americano, oferece aromas de cereja, amora, morango e baunilha. Na boca há sensação de algo doce, mas é seco. Estruturado, com bom corpo, tem taninos presentes, maduros, preservando a boa fruta e a acidez final (13%).

 

José de Sousa Mayor 2015

José Maria da Fonseca – Alentejo – Portugal – Decanter – R$ 281,50 – Nota 93

Historicamente, a casa José de Sousa Rosado Fernandes foi uma referência em vinhos no Alentejo, com seus tintos estruturados, volumosos, mas bastante finos e elegantes elaborados em talhas de barro. Um de seus produtos, que ficou na memória dos mais antigos, era chamado de Tinto Velho, especialmente o da colheita de 1940. Depois que a José Maria da Fonseca comprou a vinícola centenária, os irmãos Domingos e António Soares Franco queriam recriar o mais fielmente possível o estilo deste sempre lembrado Tinto Velho. Mas não encontraram na adega nenhuma garrafa do vinho, nem um único registro que pudesse dar uma pista de seu perfil. Por sorte, em uma viagem a Londres António descobriu 12 garrafas do Tinto Velho 1940 em uma empresa especializada em leilões de vinhos. Com isso, e mais as uvas da vinha velha existente, conseguiram o desejado ponto de partida do projeto. Depois, certo dia, os funcionários que estavam fazendo a limpeza e recuperação da adega removeram uma pilha de carvão de lenha deixada ali havia muito tempo. Surpresos, encontraram por baixo do monte mil garrafas do mesmo Tinto Velho de 1940. Protegidos por este ambiente especial, os vinhos mantiveram intactas todas as suas características e estavam perfeitos. Com tantas referências, o enólogo Domingos Soares Franco pôde ter segurança para prosseguir o trabalho. O novo tinto, elaborado por ele, foi identificado inicialmente como José de Sousa Garrafeira, nome que a burocracia alentejana vetou, pois Garrafeira é uma categoria específica de vinhos. Assim, a partir da colheita de 1993 ficou José de Sousa Mayor. Na composição predomina a Grand Noir, com 58%, completada por 30% de Trincadeira e 12% de Aragonês, de vinhas velhas. A Grand Noir surgiu na França no século XIX, de um cruzamento de Petit Bouschet e da menos expressiva Aramon, feito pelo especialista Henri Bouschet, o mesmo que criou a grandiosa Alicante Bouschet. No tinto, parte dos cachos é pisada em um lagar pequeno, como se fazia no passado, e depois massas e mosto são transferidos para talhas de barro e lagares maiores. O vinho amadurece por 9 meses em barricas novas de carvalho francês e é engarrafado sem filtração. Delicioso, lembra nos aromas figo, especiarias, tabaco e cacau, além de notas de couro e café, trazidas pelo envelhecimento na garrafa. Encorpado, apresenta estrutura, é macio, com taninos firmes, maduros, tem bastante equilíbrio e elegância final. Tudo isso sem perder o frescor (14,1%).

 

Moscatel de Setúbal Alambre 20 Anos

José Maria da Fonseca – Setúbal – Portugal – Decanter – R$ 461,60 – Nota 94

Moscatel de Setúbal é uma das glórias da José Maria da Fonseca, a primeira vinícola a lançar a marca e o estilo, ainda no século XIX. Com o tempo passou a ser produzido por outras casas da região de Setúbal e teve DO própria oficializada em 1907. Os vinhos desta denominação de origem especial devem ter em sua composição pelo menos 85% da casta Moscatel de Setúbal e são fortificados, isto é, recebem adição de aguardente vínica, que interrompe a fermentação, eleva a gradação alcoólica e preserva boa parte do açúcar natural dos cachos. Na vinificação, as uvas são fermentadas com as peles e, depois da aguardentação, as cascas são deixadas a macerar no líquido durante mais alguns meses, intensificando sabores e aromas. Em seguida, o vinho é drenado para ser envelhecido durante um período mínimo de 18 meses em cascos de madeira usada. Isto vale para o Moscatel de Setúbal normal. Já o Alambre 20 Anos vai além. O período de contato com as peles é de 5 meses. E o tempo de amadurecimento indicado no rótulo não é média de idade, como em algumas outras apelações portuguesas, e sim o da colheita mais nova que o integra. No caso, este Alambre com indicação de idade é um lote de 6 colheitas diferentes, em que a mais nova tem pelo menos 20 anos e a mais antiga data de 1911. O resultado é um verdadeiro néctar de cor âmbar, com aromas complexos, intensos, e sabores de nozes e frutas secas, cítricas, mel e doce de casca de laranja. Na boca é largo, denso, untuoso e bastante persistente. Tem 182 gr. de açúcar residual por litro, mas a doçura é balanceada pela boa acidez. Sem dúvida, está entre os grandes vinhos doces fortificados do mundo. De modo geral, o Moscatel de Setúbal merece ser mais conhecido pelo consumidor. A propósito, certa vez o famoso crítico americano Robert Parker, depois de provar os vinhos da DO, escreveu em sua revista The Wine Advocate: os Moscatéis de Setúbal “são os melhores vinhos que ainda desconhecemos”. É verdade (18,4%).

Importadora Decanter – (47) 99983-2961 – (47) 3326-0111 –  E-commerce: 47 3038-8875 – www.decanter.com.br

 

Importadora Interfood – (11) 2602-7255 – 0800770-1871 – www.interfood.com.br

 

 

 

 

 

 

 


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