Ironstone, na Califórnia, um modelo de sustentabilidade que poderia ajudar vinícolas brasileiras a se manter

Ironstone, na Califórnia, um modelo de sustentabilidade que poderia ajudar vinícolas brasileiras a se manter

Ironstone: 465 hectares de atrações

Um e-mail recebido por Brasil Vinhos esta semana trouxe um vídeo sobre a Ironstone, uma vinícola da Califórnia, nos Estados Unidos. As imagens falam de vinho, claro, mas mostram muito mais. Ironstone é o principal destino turístico do condado de Calaveras, junto à Sierra Nevada.

Reúne em uma grande propriedade, perto da cidade de Murphys, vinhedos, adega, jardins encantadores, gramados imensos, um lago, anfiteatro para concertos, espaço para casamentos, áreas para exposições, um museu, loja, restaurante, bistrô e um bar charmoso, onde podem ser feitas as degustações dos rótulos da casa.

Esse conjunto voltado para o entretenimento ajuda a sustentar e ampliar o negócio da família Kauntz, já na quarta geração de agricultores e, agora, vitivinicultores. É conhecida a habilidade dos americanos para o show business e as vinícolas locais fazem disso um lucrativo negócio. Basta ver o que o cineasta Francis Ford Coppola projetou em suas três vinícolas no Napa Valley, na mesma Califórnia, onde o forte da decoração são objetos usados em seus filmes, como os icônicos carros que aparecem na trilogia “O Poderoso Chefão”.

As vinhas na AVA Foothills

A Ironstone, cujos vinhos são distribuídos no Brasil pela importadora SmartBuy, também leva o negócio da diversão bastante a sério. “Venha pelo vinho. Fique durante o dia”, convida a propaganda divulgada no site da empresa. Ao ver tantas atrações em um mesmo local, surge de imediato a ideia de que a experiência da Ironstone poderia servir de inspiração para as vinícolas brasileiras. Apesar das restrições provocadas atualmente pela pandemia da Covid-19, a vida segue e isso um dia vai passar.

Miolo: espumantes na torre

Muitas vinícolas nacionais promovem o enoturismo e têm serviços de recepção de visitantes. Mas de modo geral são limitados ao vinho. Algumas vão um pouco além, como a Miolo, que está explorando bem a área de sua sede no Vale dos Vinhedos, onde oferece cursos de formação para enófilos, o Wine Garden – um wine bar a céu aberto –, e acaba de inaugurar um espaço especial para a degustação de seus espumantes no alto da Torre da propriedade, a 45 metros de altura – é a Visita DOVV (Denominação de Origem Vale dos Vinhedos) Espumantes.

Cristofoli: Edredon nos parreirais

A pequena Cristofoli, em Faria Lemos, um distrito de Bento Gonçalves, organiza passeios pelos vinhedos e promove experiências como Tour Vinho e Paisagem, piqueniques (Edredon nos Parreirais) e Almoço ao ar Livre. Na época da vindima, como agora, quase todas as vinícolas brasucas oferecem programas especiais, do tipo colheita de cachos e a brincadeira de pisar as uvas. Ainda assim, tudo sempre restrito ao vinho.

Talvez a atividade mais abrangente na área do enoturismo por aqui seja a da família Valduga, igualmente do Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha. Em 1992 os irmãos Valduga começaram a construir um verdadeiro complexo turístico em torno de suas vinhas e adega e a oferecer uma programação ampla e variada aos visitantes. Hoje o conjunto inclui cinco pousadas, restaurantes e a Casa Madeira, que produz delicatéssens.

Valduga: adega e complexo enoturístico

Os pacotes, além de alojamento e refeições, oferecem passeios, degustações nas caves subterrâneas ou na antiga cave das pipas, cursos de formação e até a visita a uma cervejaria, a Leopoldina, que pertence ao grupo. A Casa Valduga informa que já começou a retomar as atividades do enoturismo, tomando os cuidados impostos pela Covid. Há muita coisa gostosa a se fazer por lá nesse período da colheita das uvas.

Há, é claro, uma preocupação das nossas vinícolas de aumentar sua receita com o oferecimento de novidades para atrair visitantes – a propósito, a venda de vinhos das lojas instaladas junto às adegas é um dos principais canais de comercialização de muitas empresas. Mas nada se compara ao que se encontra na californiana Ironstone.

 

Atrair visitantes

O casal Fred e Marie Kautz, de origem alemã, chegou aos Estados Unidos em 1915. Passou por vários Estados, até se fixar em Lodi, pequena cidade do condado de San Joaquin, no centro-norte da Califórnia. Dedicava-se a cultivar beterrabas e outros produtos agrícolas. Após a morte de Fred, em 1952, seu filho John assumiu a chefia dos negócios da família. Dinâmico, empreendedor, ele expandiu as propriedades e abriu novos caminhos.

A família Kautz

John começou com 15 hectares de terras herdados do pai. Em 1968, ele e a mulher, Gail, viram um futuro melhor no vinho e plantaram seus primeiros vinhedos na emergente denominação Lodi. Aos poucos, com ajuda da família, o casal conseguiu ampliar o negócio com a venda de uvas, vinhos a granel e de marcas próprias.

Na década de 1980 o casal deu mais um passo, com a formação da vinícola Ironstone, em Murphys, no condado de Calaveras. Murphys se localiza no sopé de Sierra Nevada, entre o Lago Tahoe e o Parque Nacional de Yosemite. Tornou-se conhecida em todo o país como área de mineração e ter sido o centro da corrida do ouro na Califórnia, por volta de 1848. Hoje é uma comunidade com apenas 2.500 habitantes, embora vibrante e próspera, que alia o charme das construções do passado com as comodidades da vida moderna. Está a umas 3 horas e meia de carro de San Francisco.

Nos últimos anos, John e Gail, ainda ativos, passaram o comando da Kautz Family Farms aos quatro filhos – Stephen, Kurt, Joan e Jack. A família possui atualmente 2,8 mil hectares de terras nas AVAs (Área Vitícola Americana) de Lodi e Sierra Foothills. O grupo produz uma gama completa de vinhos, desde jovens e frutados a tintos e brancos estruturados e complexos, com as marcas Ironstone, Drifting, Granite Hill, Leaping Horse, Obsession e Stone Valley.

Ironstone: riacho, lago e lindos jardins

A propriedade principal, Ironstone, fica na AVA Foothills e tem 465 hectares de terras. Além da qualidade dos vinhos, o que chama a atenção ali é a diversidade de atrações que a família oferece. Uma delas é a própria cave de amadurecimento dos vinhos, construída sob as muitas rochas ali existentes – e que foram inspiração para o nome Ironstone.

Para isso, em 1989 John Kautz contratou uma equipe de mineiros profissionais para explodir e escavar o solo de pedras. Ao final, eles abriram um espaço com 3 mil m², que abriga as barricas de carvalho e serve também de cenário para recepções de casamento.

Cenário para casamentos

Os casamentos, aliás, são uma das maiores fontes de receita da família, que oferece pacotes completos para cerimônia, recepção e até suítes para os noivos se prepararem. O apelo da propaganda é irresistível: “imagine fazer seus votos com um riacho correndo entre vocês e seus convidados, ou ao lado de nosso belo lago, ou debaixo de um carvalho centenário”.

Ironstone tem tudo isso: jardins com muitas flores e árvores, lago, riacho, pequenas cachoeiras e extensos gramados. Para a festa depois da cerimônia os noivos podem contratar recepção nos jardins, na cave subterrânea ou em amplos salões – um deles com 1.200 m². Só para administrar os pacotes a empresa tem uma equipe de 20 pessoas.

O anfiteatro

Em outra parte da propriedade ergue-se um anfiteatro, com um grande palco e um gramado onde milhares de pessoas podem se sentar. Ali já foram promovidos shows com bandas e cantores conhecidos, como Deep Purple, Kenny G. e Willie Nelson. Outro espaço para concertos é o Alhambra Music Room, nome inspirado por uma antiga sala de música de Sacramento, ali perto.

Para lembrar a época da mineração em Murphys, Ironstone conta com um museu ao ar livre, onde os visitantes encontram uma roda d’água, calha, barraca dos mineiros, equipamentos e maquinários ligados à corrida do ouro na Califórnia.

Museu da mineração

Ouro e pedras também são a estrela de outro museu da família, o Heritage, inaugurado em 1996. Sua jóia mais importante é uma folha de ouro cristalizado, com quase 20 kg. Foi descoberta numa mina ali perto e comprada pela família Kautz, que mandou fazer um processo com banhos ácidos para eliminar o cristal e deixar apenas o metal precioso. É considerada a maior peça de ouro extraída nos EUA desde 1880 e tem valor inestimável, por seu peculiar formato.

Uma atração organizada todos os anos na área da vinícola é o Concours d’Élégance, considerado um dos 10 melhores eventos de carros antigos do país. É uma das formas de a família arrecadar recursos para sua Ironstone Foundation – que ajuda a formar filhos dos agricultores da região e oferece bolsas de estudo para jovens de todo o Estado.

A grande folha de ouro

Por fim, para quem quiser visitar a vinícola e conhecer seus vinhos são oferecidos passeios rápidos ou tour completo – pagando entre US$ 10 e $ 65 por pessoa. Se além disso o turista preferir uma agradável experiência gastronômica, dispõe de um restaurante de alto nível, com cardápio harmonizado, um bistrô e um bar onde pode provar diferentes rótulos do grupo.

Se quiser comprar o que mais gostou, o visitante encontra vinhos e alimentos especiais na loja anexa. Como se vê, o vinho é o princípio e a alma do negócio. Mas Ironstone é muito mais que uma vinícola. É uma verdadeira usina de criatividade.

 

Importadora SmartBuy – Tel. (11) 3042-3137 – https://www.smartbuywines.com.br.

 

 


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