A grande Riesling e seus vinhos brancos maravilhosos

A grande Riesling e seus vinhos brancos maravilhosos

Vinhos provados na Vind’Ame

O consumidor brasileiro, apesar do clima quente, não é novidade, bebe pouco vinho branco. Provavelmente por desconhecimento, insiste nos tintos, mesmo com a canícula que caracteriza o nosso verão. O consumo de brancos é de apenas 25% do total comercializado no país. Estamos falando de vinhos finos tranquilos, isto é, produzidos a partir de uvas viníferas, já que os espumantes nacionais correm em paralelo e vão muito bem.

Há grandes vinhos no planeta feitos com uvas brancas. As mais conhecidas são Chardonnay e Sauvignon Blanc. Mas a Riesling, uma das castas brancas mais importantes do mundo, merece ser mais bem conhecida, pela grandeza e qualidade dos vinhos que proporciona. Diversas importadoras e produtores brasileiros oferecem vinhos de Riesling e há rótulos espetaculares nessa lista.

Entre tantas possibilidades, destacamos aqui os brancos feitos com a casta distribuídos pela Vind’Ame, a importadora paulista de Michael Schüte e Ana Cristina Lins, que têm feito um trabalho importante de divulgação da Riesling. A variedade origina rótulos notáveis na Alemanha, na Alsácia francesa, na Áustria e, em menor escala, nos países do Novo Mundo. No caso da Vind’Ame, as estrelas são alemãs.

 

A uva

A Riesling amadurece bem, com acidez

Embora não exclusiva do país, a Riesling é de fato bastante associada à Alemanha. É cultivada em praticamente todas suas regiões, com total de quase 23 mil hectares plantados. No Mosel e no Rheingau, suas áreas mais tradicionais, documentos históricos mencionam a presença da casta já em 1435. Em Rheinhessen e no Palatinado (Pfalz), a Riesling foi cultivada desde o final do século 15.

Alguns países tentaram pegar uma carona e acrescentaram Riesling ao nome de cepas locais. Há, por exemplo, a Riesling Itálica, que não tem parentesco com a chamada verdadeira, a alemã. Para evitar dúvidas, internacionalmente a casta nobre é conhecida como Riesling Renana.

A equipe da Vind’Ame ressalta que a Riesling é uma uva de amadurecimento lento, cuja característica é a destacada acidez, com excelente caráter frutado. O típico vinho de Riesling mostra cor amarelo pálido, com nuances esverdeadas. Os aromas de pêssego e de maçã dominam, e sente-se uma acidez refrescante na boca.

Jancis Robinson, em seu “Guia de Castas” (versão portuguesa de Edições Cotovia – Lisboa – 2001), observa que a variedade dá vinhos bastante aromáticos. “O vinho Riesling, onde quer que seja produzido – diz ela – é notável pelo seu poderoso aroma cortante, descrito como sendo de flores, aço, mel ou seja qual for a mistura de elementos minerais presente no local de cada vinha.

Este aroma distintivo pode ganhar notas de querosene com a maior maturação e a idade – e é normalmente o primeiro sinal que os conhecedores percebem para identificar a casta. Ainda segundo Jancis, esse conjunto de aromas é intenso, porque a Riesling “possui monoterpenos elevados”, ou seja, compostos aromáticos, de 10 a 15 vezes mais intensos do que outras uvas brancas menos complexas.

Madura, pode lembrar querosene

Por suas características e boa maturação, a Riesling pode dar origem a vinhos secos, meio doces ou bem doces. Em relação a estes dois últimos, Jancis nota que “o elevado nível de acidez natural da uva dota-a de um contrapeso seguro para um teor mais elevado de açúcar residual”.

É de se notar que a Riesling proporciona os excepcionais brancos doces alemães produzidos com uvas atacadas pela podridão nobre (Botrytis Cinerea). E dá origem ainda aos notáveis Eiswein (Vinhos do Gelo), elaborados com uvas colhidas congeladas na parreira.

Os vinhos de Riesling são agradáveis para beber jovens, mas os grandes exemplares mostram incontável aptidão para a guarda, graças à sua combinação de acidez e extrato – mesmo que, no caso de muitos brancos alemães, tenham gradação alcoólica baixa.

 

O terroir

Vale do Mosel, com vinhas nas encostas

Michael Schüte, alemão casado com a brasileira Ana Cristina Lins e que mora há muitos anos no Brasil, destaca que em seu país a Riesling se dá melhor na área que vai do centro ao norte, onde amadurece em temperaturas moderadas devido aos longos dias de verão e a perfeita insolação.

Segundo Michael, a casta depende muito da localização do vinhedo (orientação para o sol, encostas íngremes), e menos do tipo de solo. Os melhores lugares de plantio são as escarpadas encostas rochosas ao longo dos rios, que têm boas condições de retenção de calor. Os vinhos são diferenciados conforme a localização da vinha.

A Riesling também é versátil e traduz bem o terroir em que é cultivada. Nos vinhos feitos com uvas plantadas em solos de ardósia fala-se de uma “nota mineral” e alguns exemplares mostram aroma de sílex (pedra de isqueiro).

Palatinado, vinhos mais secos

Por isso faz sentido dizer que cada região da Alemanha expressa seu próprio Riesling. Os vinhos mais típicos, de acordo com Michael, vêm do Mosel, do Vale do Reno e Palatinado, um diferente do outro. A seu ver, os brancos do vale do rio Reno (Rheingau especialmente) têm acidez marcante e são mais integrados; os do Mosel se mostram mais crocantes, com maior presença de açúcar residual, o que os torna menos secos; já os do Palatinado (Pfalz) são mais secos.

Os vinhos de Riesling são versáteis também à mesa. Os secos e semi-secos fazem companhia a pratos leves, entradas, peixes e frutos do mar, carne de porco e carnes brancas. Os semi-secos têm ainda boa vocação para os pratos agridoces da cozinha thai. Já os vinhos doces acompanham sobremesas e queijos ou podem ser bebidos sozinhos, com grande prazer.

 

Os vinhos

Dr. Bürklin-Wolf Riesling Trocken 2017

Dr. Bürklin-Wolf – Palatinado – Alemanha – Vind’Ame – R$ 189 – Nota 92

A vinícola, muito tradicional, é considerada uma das melhores produtoras de Riesling secos do mundo. A família Bürklin já era conhecida por seus vinhos em 1597. Em 1875, o vereador Dr. Albert Bürklin de Karlsruhe-Durlach se casou com a neta de Johann Ludwig Wolf e recebeu como dote algumas das melhores terras na região de Wachenhein, no Palatinado (Pfalz), sudoeste alemão, perto da fronteira com a Alsácia francesa. Daí o nome da casa, Dr. Bürklin-Wolf. A diretora atual, Bettina Bürklin von Guradze, herdou a propriedade de seus pais em 1990. Muito dinâmica, ela promoveu atualizações na empresa e iniciou processos pioneiros na viticultura alemão, sem abrir mão da qualidade. Há alguns anos a vinícola, com 85 hectares de vinhedos, adota o manejo biodinâmico no campo e seus vinhos são orgânicos e vegan certificados. Hoje três gerações da família atuam na empresa. Tradição e modernidade caminham juntas. Por exemplo, a equipe está fermentando e amadurecendo parte de seus vinhos em grandes tonéis de carvalho, como no passado. Mas um sistema eletrônico controla a temperatura dos barris durante a fermentação. É o sistema empregado na elaboração deste Riesling delicioso, seco (trocken), rico de aromas e elegante na boca. Traz ao nariz pêssego, maçã verde e cítricos, junto a notas florais e minerais finas. Volumoso, com acidez cortante, mostra muita vivacidade e frescor (12%).

 

Graf Neipperg Riesling Trocken 2018

Graf Neipperg – Württemberg – Alemanha – Vind’Ame – R$ 159 – Nota 91

A família dos condes (Graf, em alemão) de Neipperg está ligada ao mundo dos vinhos desde o ano 766, época em que foi registrada a primeira menção à viticultura no povoado de Böckingen, perto do castelo desses representantes da antiga nobreza alemã. Os vinhedos se concentravam no vale do rio Necker, mas alguns séculos depois, provavelmente por causa de mudanças climáticas, foram transferidos para as colinas, passando a ser conhecidos como “Neipperger Schlossberg” e “Schwaigerner Ruthe”. Nesses locais a uva é cultivada até os dias de hoje. Ali predominavam as castas tintas, como a menos conhecida Lemberger. Mas também há bons brancos, caso deste Riesling trocken, que mescla uvas de vários vinhedos da vinícola nas áreas de Neipperg e Schwaigern, perto da cidade de Heilbronn. O Neipperger Schlossberg começa logo abaixo das duas torres de defesa do castelo principal da família, desce pelas encostas íngremes da colina e se estende até o platô abaixo. É terreno calcário, rico em gipsita. Os aromas lembram maçã e cítricos, em meio a notas florais, a rosas, minerais, de especiarias doces e algo de ervas. Como indicado no rótulo, é seco, tem bom volume, acidez crocante, frescor e muito boa persistência (12%).

 

RK Riesling 2018

Reichsgraf von Kesselstatt – Mosel – Alemanha – Vind’Ame – R$ 159 – Nota 90

A histórica vinícola Reichsgraf von Kesselstatt (Conde de Kesselstatt) iniciou sua atividade em 1349. Ao longo do tempo, a família firmou seu nome com vinhos de alta qualidade na região da cidade-distrito de Trier (Tréveris). Ali, no século XVIII construiu um famoso palácio no estilo barroco, que hoje abriga um charmoso wine bar. Em 1978, a vinícola foi comprada pela família de Annegret Reh-Gartner. Ela e o marido, Günther, chef de cozinha com duas estrelas Michelin, atualizaram a empresa, sempre com foco em rótulos de padrão elevado. Desde 1999 a sede se situa no Castelo Marienlay, na mesma área de Trier. A família possui 36 hectares de vinhedos, sendo 12 ha. em cada um dos três vales que integram a região do Mosel – a saber, os vales dos rios Mosel, Saar e Ruwer. As vinhas estão plantadas em encostas íngremes que, se oferecem boa exposição solar, exigem que todo o trabalho seja feito a mão, pois não é possível o acesso de tratores e máquinas. Com a morte de Annegret em 2016, a família e equipe mantém a filosofia implantada por ela. Não são usados agrotóxicos nos vinhedos, nem produtos químicos sintéticos na adega. Seu Riesling, da linha de entrada, é um vinho meio-seco, jovem e fresco, com baixa gradação alcoólica. Cítrico, com algo de maçã verde e toques minerais (pedra de isqueiro), é delicado na boca. Frutado, é fácil de beber, pela sensação de doçura, compensada pela boa acidez (10,5%).

 

Kaseler Nies’chen Kabinett Riesling 2013

Reichsgraf von Kesselstatt – Mosel – Alemanha – Vind’Ame – R$ 289 – Nota 93

Mais um grande branco da histórica vinícola Reichsgraf von Kesselstatt (Conde de Kesselstatt), da região do Mosel. Pela legislação alemã, que divide a produção por categorias de particularidades climáticas e privilegia o amadurecimento e o grau de açúcar das uvas e dos vinhos, Kabinett é um QmP, isto é, Qualitätswein mit Prädikat (Vinho de Qualidade com Predicados). No primeiro nível da classificação, corresponde a um Reserva, em que as uvas são colhidas maduras e com ótima densidade do mosto. Normalmente são vinhos com baixa gradação alcoólica. Este apresenta riqueza de aromas, em que aparecem mel, damasco, abacaxi, doce de casca de laranja e toques minerais. Levemente doce, é volumoso, suculento, untuoso, persistente. A acidez forte equilibra e compensa a sensação de doçura. Tem frescor e não é enjoativo (9,5%).

 

Ruppertsberger Riesling Auslese 2015

Dr. Bürklin-Wolf – Palatinado – Alemanha – Vind’Ame – R$ 349 (garrafa de 375 ml) – Nota 94

Embora conhecida por seus brancos secos, a renomada vinícola Dr. Bürklin-Wolf mostra que trabalha igualmente bem os vinhos feitos com uvas muito maduras, quando a safra permite, caso de 2015. Auslese, pela complexa legislação alemã, é o terceiro nível na lista de QmP, ou Qualitätswein mit Prädikat (Vinho de Qualidade com Predicados). Auslese, ou Colheita Selecionada, indica que foi feita seleção, ainda no pé, dos cachos mais maduros, particularmente os botrytisados, ou seja, atacados pela podridão nobre. Pelo elevado grau de amadurecimento das uvas, geralmente são vinhos mais doces. O Ruppertsberger, certificado como biodinâmico, orgânico e vegan, traz ao nariz geleia de abacaxi, damasco, mel, doce de casca de laranja e notas minerais. Doce, untuoso, elegante, longo, é perfeitamente equilibrado. A ótima acidez balanceia seus 117 gr. de açúcar por litro. Um vinho impecável, diferenciado e gostoso (10%).

Vind’Ame Importadora – São Paulo/SP – Tel.: (11) 2384.6946 ou (11) 2384.6952 – www.vindame.com.br.

 


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