O tinto El Principal, um top chileno, ganha com mudanças feitas nas últimas safras

O tinto El Principal, um top chileno, ganha com mudanças feitas nas últimas safras

Na prova, 4 safras: 2012, 2013, 2014 e 2015

Em 20 anos, desde seu lançamento, em 1999, o tinto El Principal Andetelmo se consolidou como um dos melhores vinhos do Chile. Ele tem o mesmo nome da pequena vinícola que o produz, situada em Pirque, no Maipo Alto, berço dos grandes Cabernet Sauvignon do país. Nas últimas safras, o enólogo Gonzalo Guzmán, um dos bons nomes do setor, tem feito algumas alterações em sua composição, para dar mais frescor ao ícone da casa.

Para mostrar as mudanças, Gonzalo comandou esta semana em São Paulo uma degustação de quatro edições do El Principal, em evento organizado pela importadora Decanter, de Adolar e Edson Hermann. A vertical, prova de várias safras de um mesmo vinho, para avaliar sua evolução ao longo do tempo, reuniu amostras de 2012, 2013, 2014 e 2015.

A Cabernet Sauvignon continua predominando largamente no corte. Mas desde a colheita de 2010 o enólogo substitui a Carmenère, presente no lote inicial, pela Petit Verdot. O vinho ganhou em estrutura, maciez e, principalmente, vivacidade.

A Viña El Principal, escondida aos pés da Cordilheira dos Andes, foi criada em 1992 por Jorge Fontaine, dono da antiga propriedade de mesmo nome, em sociedade com o enólogo francês Jean Paul Valette, cuja família foi dona do renomado Château Pavie, um Premier Grand Cru Classé de Saint-Émilion, em Bordeaux. Antes, Fontaine vendia a terceiros as uvas que cultivava.

Pirque, no ponto mais alto do Maipo

O objetivo dos novos sócios era produzir apenas vinhos finos, juntando o potencial do terroir de Pirque e a experiência da família Valette. Desde o início a equipe adotou práticas rigorosas para melhorar a matéria-prima, como o desfolhamento no verão, limitação da irrigação, escolha dos melhores cachos nas mesas de seleção e concentração natural do mosto. O primeiro rótulo da empresa, o El Principal Andetelmo, foi lançado em 1999.

Em 2005 o empresário alemão Jochen Döhle comprou toda a vinícola e, em 2013, associou-se à conhecida família chilena Said Handal, que adquiriu 50% do negócio. Os irmãos Said Handal têm participações importantes em bancos, empresas de engarrafamento de bebidas e na indústria pesqueira de seu país.

Os novos proprietários mantiveram a filosofia de vinhos de qualidade da casa. Por inspiração de Jochen Döhle, a área de vinhedos foi ampliada, outras variedades foram incorporadas e houve investimentos constantes em equipamentos e tecnologia.

El Principal: 93 hectares plantados

Hoje a Viña El Principal possui 93 hectares plantados na Andetelmo Estate. Os rendimentos são baixos (4.500 a 5 mil kg por hectare) e a empresa produz 200 mil garrafas por ano – porte pequeno para os padrões chilenos, em que os grandes grupos entregam anualmente milhões de garrafas de vinho.

O portfólio se resume a quatro rótulos, agrupados na D.O. Maipo Andes: o top El Principal Andetelmo, os tintos Memorias e Calicanto e o branco Kiñe. Cerca de 95% da produção é exportada, sendo o Brasil seu maior comprador.

Uma curiosidade: o nome da vinícola faz referência ao cacique Andetelmo, chefe indígena picunche. Conhecido como El Principal, ele era o líder daquelas terras na época da chegada dos espanhóis ao Chile. Os historiadores chamam de picunche as populações nativas que falavam a língua mapundungun e, no século XVI, habitavam a área entre os vales dos rios Aconcagua e Itata (Bio-Bio), no centro-sul do país.

 

O terroir

O vinhedo é dividido em parcelas

Um dos pilares da qualidade dos rótulos da Viña El Principal é sem dúvida o potencial do terroir de Pirque. Localizado na parte mais alta do vale do Maipo, aos pés da Cordilheira dos Andes, apresenta uma combinação especial de solos, altura e microclimas.

Ao longo dos séculos, pela ação dos ventos e dos fenômenos naturais que atuam sobre a cordilheira, formou-se ali grande variedade de solos, com origem nos depósitos coluviais, aluviais e cones de dejeção da erosão das rochas. Os sopés das montanhas incorporam argila, com sedimentos de limo, pedra e cascalho, o que permite uma boa drenagem.

Chove pouco normalmente, algo como 350 mm ao ano, concentrando-se no inverno, o que não prejudica a vinha. Já o efeito moderador dos ventos andinos cria condições climáticas particulares e uma oscilação térmica superior a 20°C. Essa grande amplitude térmica favorece o amadurecimento lento e completo das uvas, com intensidade de cores e sabores. A colheita acontece entre o final de fevereiro (anos mais quentes) e as primeiras semanas de abril (anos mais frios).

O enólogo Gonzalo Guzmán

Os vinhedos da Andetelmo Estate, plantados entre 750 e 950 metros acima do nível do mar, foram mapeados em pequenas parcelas, que levam em conta o tipo de solo, altitude, exposição solar e microclima. Assim a equipe pode identificar os melhores quartéis para cada tipo de uva e de vinho pretendido.

O enólogo Gonzalo Guzmán Cassanello, que está na vinícola desde 2005, tem buscado ampliar as variedades cultivadas na propriedade. Antes, Cabernet Sauvignon e Carmenère eram a base do vinhedo. Depois vieram outras tintas, como Cabernet Franc, Petit Verdot e Syrah. Nos últimos anos, Gonzalo, que trabalhou em vinícolas na Espanha, experimentou com sucesso introduzir variedades espanholas, como Albariño, Graciano, Mencia e Verdejo, estrela do Kiñe, o notável branco da casa.

 

Os vinhos

Quando propôs trocar a Carmenère pela Petit Verdot no tinto El Principal Andetelmo, a partir da edição de 2010, o enólogo Gonzalo Guzmán testou diferentes combinações de corte. Naquele ano e no seguinte incorporou ao lote de Cabernet Sauvignon porções importantes de Petit Verdot, de 17% e até 22%. Reduziu a carga depois disso, alcançando maior equilíbrio. Nas versões mais recentes colocou na receita também uma pitada de Syrah.

Além da vertical de El Principal Andetelmo, a prova organizada em São Paulo pela Decanter ofereceu também a oportunidade de rever os outros rótulos da vinícola. É bom lembrar que, no caso do tinto El Principal Andetelmo, o catálogo da importadora oferece à venda neste momento a safra de 2014, ao preço de R$ 945.

Não é para qualquer bolso, claro, mas é preciso ressaltar que se trata de um vinho premium, feito com extremo cuidado. Amadurece em média de 18 a 20 meses em barricas novas de carvalho francês e permanece nas caves por mais dois anos, antes de chegar ao mercado. As tiragens ficam em torno de somente 8.500 garrafas por safra.

 

El Principal Andetelmo 2015

Viña El Principal – Vale do Maipo – Chile – Decanter – Nota 94

Ano perfeito, em que a natureza contribuiu em tudo para a formação de uvas sadias e maduras. Choveu menos que o normal no Alto Maipo (277 mm), o verão foi seco e levemente quente, março se mostrou mais fresco que o habitual. Isso permitiu amadurecimento lento e completo dos cachos, com a devida concentração de sabores e aromas, sem perder a acidez. O tinto ícone da vinícola expressa bem esta conjunção favorável. Corte de 92% Cabernet Sauvignon, 5% Petit Verdot e 3% Syrah, foi afinado por 20 meses em carvalho francês novo. Ficou mais dois anos envelhecendo na garrafa, antes de sair ao mercado. Traz ao nariz cassis e ameixa, com notas de especiarias, tabaco e terrosas. Parece menos estruturado que o 2014, mas provavelmente deixa esta sensação por ser mais equilibrado e fino, integrando melhor os componentes. É macio, elegante, tem acidez gostosa, persistência e frescor final. Um vinho opulento, bom de beber agora e com grande potencial de guarda (14,5%).

 

El Principal Andetelmo 2014

Viña El Principal – Vale do Maipo – Chile – Decanter – R$ 945 – Nota 94

Ano mais frio, com pouca chuva. Teve primavera fria e verão bastante seco, com temperaturas mais baixas que nos anos anteriores. As uvas amadureceram de forma lenta, com boa acidez. O enólogo Gonzalo Guzmán fechou o corte em 90% Cabernet Sauvignon, 7% Petit Verdot, 3% Syrah, com repouso de 20 meses em barricas novas de carvalho francês. Nos aromas há café, tabaco, especiarias, notas florais e fruta madura, como ameixa. Na boca é amplo, gordo, estruturado, potente, com taninos maduros e final longo. A acidez reforça o frescor. É um vinho com boa presença e tem força, sem agressividade. Vai longe (14,5%).

 

El Principal Andetelmo 2013

Viña El Principal – Vale do Maipo – Chile – Decanter – Nota 92

Ano frio, com pouco mais de chuva que o usual na região, verão com temperaturas moderadas e um tanto mais frias que a média. Os dias frescos durante a colheita proporcionaram uvas maduras, com ótima acidez. Ao fazer o corte final, o enólogo Gonzalo Guzmán selecionou 87% Cabernet Sauvignon, 9% Petit Verdot e, pela primeira e até agora única vez, 4% de Cabernet Franc. Com a passagem de 20 meses por barricas novas de carvalho francês, o tinto apresenta ao nariz amora, notas florais, a violeta, especiarias e tabaco. É o menos estruturado do painel, embora mostre bom corpo. Mantém o frutado na boca, é macio, equilibrado e elegante, com bom frescor final. Fácil de beber, tem perfil mais moderno que as versões dos anos anteriores (15%).

 

El Principal Andetelmo 2012

Viña El Principal – Vale do Maipo – Chile – Decanter – Nota 92

Um tinto de perfil clássico, fruto de ano quente. No verão de 2012, as temperaturas mais elevadas que a média histórica provocaram antecipação geral da vindima, que começou no final de fevereiro. Já as parcelas selecionadas de Cabernet Sauvignon e Petit Verdot foram colhidas em meados de março. No vinho entraram 93% de Cabernet Sauvignon e 7% de Petit Verdot. O amadurecimento foi de 18 meses no carvalho francês novo. Nesta versão, aparecem mais no nariz as notas mentoladas que caracterizam muitos Cabernet chilenos. Lembra ainda cereja, amora e algo de eucalipto. Traz boa carga de fruta madura, é encorpado, estruturado, com boa acidez, taninos firmes, finos e final persistente. Está no auge para beber (15%).

 

Memórias 2016

Viña El Principal – Vale do Maipo – Chile – Decanter – R$ 359 – Nota 92

Embora seja considerado o segundo vinho da casa, criado também em 1999, tem nível elevado e estilo próprio. Nesta safra o corte foi de 83% Cabernet Sauvignon, 9% Syrah, 6% Petit Verdot e 2% Carmenère, com estágio de 17 meses em carvalho francês. Lembra nos aromas cassis, menta, groselha, tabaco e ervas. Tem bom corpo, estrutura, taninos firmes, maduros, muito boa acidez e frescor. O final é agradável, persistente (14%).

 

Calicanto 2017

Viña El Principal – Vale do Maipo – Chile – Decanter – R$ 172,70 – Nota 90

Um vinho de entrada privilegiado, produzido desde 2007. Aqui também a Cabernet Sauvignon de Pirque predomina no corte, com 69%, completada por 11% Syrah, 10% Petit Verdot 8% Carmenère e 2% Malbec. Descansou por um ano em carvalho francês. Cereja, mentol, cassis e tabaco aparecem ao nariz. Na boca apresenta um conjunto bem feito, não muito encorpado, macio, fácil de beber. Tem acidez firme, frescor e persistência (14%).

 

Kiñe 2018

Viña El Principal – Vale do Maipo – Chile – Decanter – R$ 354 – Nota 92

O único branco da vinícola, lançado em 2014, nasceu da inspiração do enólogo Gonzalo Guzmán depois de ter trabalhado na Espanha. A uva Verdejo, inédita no Chile, é o orgulho da região espanhola de Rueda. Adaptou-se bem ao terroir do Maipo Alto. Aqui foi fermentada com leveduras indígenas em barricas de carvalho, onde permaneceu por mais 10 meses, com agitação periódica do líquido para suspender os restos de leveduras e sólidos (battônage), o que resulta em mais volume e cremosidade. Apresenta aromas cítricos, de pera e melão, com algo de grama cortada e toque mineral. No paladar é amplo, gordo, untuoso e fresco. A acidez é gostosa e não há excessos de madeira. Em resumo, um branco delicioso (14%).

 

Decanter Importadora – Em São Paulo: (11) 3702-2020; Matriz Blumenau/SC: (47) 3038-8875 – www.decanter.com.br.


Tags assigned to this article:
chileEl PrincipalImportadora DecanterMaipo Alto

Related Articles

Santa Julia Reserva Cabernet Sauvignon 2015

Santa Julia Reserva Cabernet Sauvignon 2015 Familia Zuccardi – Mendoza – Argentina – Pão de Açúcar – R$ 59,90 –

Hannover e KMM fazem parceria

A Hannover, de Niels Bosner, de Porto Alegre, fez parceria com a KMM, de Marli Predebon, que vai distribuir em

A receita de um dono de restaurantes para aumentar o consumo: desmistificar o vinho e deixar o cliente ser feliz

Entrevista: Murilo Canassa Fala-se muito que o brasileiro consome pouco vinho, que mesmo os que bebem não sabem quase nada

No comments

Write a comment
No Comments Yet! You can be first to comment this post!

Write a Comment

Your e-mail address will not be published.
Required fields are marked*