A vinicultura brasileira e as lições do mestre Adolfo Lona

A vinicultura brasileira e as lições do mestre Adolfo Lona

 

O enólogo Adolfo Lona

A produção de vinhos finos no Brasil, que começa a se consolidar, teve suas bases implantadas nas décadas de 1970 e 1980. Entre outras coisas, naquele período várias multinacionais de vinho decidiram investir no país, ajudando a impulsionar nossa incipiente vitivinicultura com novas práticas, tecnologias e equipamentos modernos.

Instalaram-se no Rio Grande do Sul grupos como Heublein, Seagran, Almadén, Cinzano e Chandon. Junto com eles vieram enólogos importantes, como Phillipe Coulon, Dante Calatayud, Ernesto Cataluña, Mario Geisse, que formaram muitos profissionais por aqui e abriram novos caminhos para a elaboração de vinhos de qualidade. Aliás, nos anos 1990 pequenos produtores, estimulados por esse trabalho, resolveram produzir seus próprios vinhos, dando origem a muitas das vinícolas familiares que hoje se destacam em nosso mercado.

Voltando aos pioneiros, em 1973 a conhecida empresa italiana Martini & Rossi também montou sua vinícola em Garibaldi, na Serra Gaúcha, destinada inicialmente a elaborar vinho base para seus vermutes. Algum tempo depois, deu novo passo, lançando o rótulo Château Duvalier, que logo se tornou bastante popular.

Para cuidar do desenvolvimento de seus vinhos finos, por volta de 1974 o grupo contratou um jovem enólogo argentino, Adolfo Alberto Lona. Nascido em Buenos Aires e formado na Faculdad Don Bosco de Enologia, em Mendoza, Lona pretendia passar apenas algum tempo em Garibaldi. Acabou fincando raízes na cidade, onde vive até hoje com a mulher, Silvia. É sobre ele que queremos falar.

 

Em busca da qualidade

Adolfo Lona realizou um trabalho de profundidade na adega e nos vinhedos. Para conseguir vinhos melhores, incentivou os viticultores parceiros a adotar novos manejos no campo, a reduzir as quantidades em favor da qualidade, a fazer a reconversão dos vinhedos de latada para espaldeira. A Martini & Rossi, que depois virou a Bacardi Martini, foi das primeiras empresas a pagar mais por uvas diferenciadas, premiando os bons produtores.

Lona criou os espumantes De Greville e, em 1978, a linha de tintos, brancos e rosé Baron de Lantier, logo um sucesso de vendas.Diretor técnico da vinícola, Lona permaneceu por 30 anos no grupo. Ao se aposentar, não parou.

Ainda morando em Garibaldi, em 2004 resolveu usar toda sua experiência para produzir os próprios espumantes, a premiada linha Adolfo Lona, em que brilham rótulos como Nature Pas Dosé, Orus Rosé Pas Dosé e Brut Método Tradicional e o gostoso Brut Rosé, feito pelo processo Charmat.

Conheci Adolfo Lona nos anos 1990, quando eu já escrevia sobre vinhos. Além do talento como enólogo, ele tem como característica a simpatia, um invejável bom humor e enorme generosidade para compartilhar seus conhecimentos. Influenciou toda uma geração de enólogos no Brasil e ajudou a formar centenas de enófilos em cursos de fim de semana e degustações pelo país.

Atualmente, além de elaborar espumantes com seu nome em uma pequena adega artesanal, Lona é um bem sucedido escritor de vinhos. Mantém o blog “Vinho sem frescuras” que, como se vê pelo título, é bastante informal, embora sério e competente.

Compartilhamos aqui um post que Lona escreveu no início de outubro, sobre a sempre atual discussão em torno do uso ou não da madeira na elaboração de vinhos finos, especialmente os de guarda. Ele fala das virtudes das barricas, mas lembra que carvalho em excesso, cansa, e defende a necessidade de envelhecer o vinho antes de comercializá-lo.

Ressalta, principalmente, que os enólogos deveriam dar mais valor à utilização dos tonéis de madeira com capacidade superior a um mil ou 2 mil litros, para “voltar um pouco aos velhos tempos, onde a corrida era pela qualidade, pelo sabor cativante, convidativo, onde a casta comandava o espetáculo”.

Mais do que informações técnicas, o que também me chamou a atenção no texto foi o verdadeiro resumo que ele faz do que aconteceu de mais importante na vinicultura brasileira ao longo das últimas décadas. São lições do mestre Lona que vale a pena conhecer.

 

Aço, barrica, tonel

Adolfo Lona

“Vinho sem frescuras” – 07/10/2017

 

O tema aço inoxidável, barrica e tonel dá para muito. Volto com ele, porque é atualíssimo. Farei o que estiver a meu alcance para mudar, ainda que minimamente, a predominância deste binômio. Minha experiência, que conto abaixo, e minha visão do momento atual, me obrigam a fazê-lo.

Na minha longa carreira de enologia, que iniciou na década de sessenta na Bodega Arizu, em Mendoza, na Argentina, tive a sorte de ir aprendendo e entendendo a cada dia, a maravilhosa missão da “elaboração”. Porque os vinhos não se fabricam, se elaboram, se criam, se transformam, se modelam, se aperfeiçoam.

Em Arizu tive a privilégio de conviver com um dos mais respeitados enólogos argentinos: Don Raul de la Mota. Don Raul, como o chamávamos carinhosamente, praticava a enologia sábia, reflexiva, respeitosa, onde o tempo e a boa madeira eram aliados insuperáveis.

Os vinhos, provenientes de uvas maturadas sem exageros, sadias, frescas, repousavam durante demorados anos em tonéis de carvalho da Eslovênia de tamanhos variáveis mas não inferiores a 1.500 litros. Neles, os vinhos maturavam devagar, incorporando migalhas de oxigênio, ganhando caráter, maciez, elegância.

Mendoza teve, no inicio do Século XX, acesso a boa madeira pelas mãos de uma família de tanoeiros da Eslovênia chamada Bajda que chegou a Mendoza após a Segunda Guerra. Nessa época não se pensava em recipientes menores como as barricas, tão em uso nos dias atuais.

Na minha chegada ao Rio Grande do Sul, já na década de setenta, a realidade foi outra. A madeira usada era a local, amendoim, grápia e pinho. O inoxidável era inviável pelo alto custo e a barrica, impensável. Descobrimos alguns anos depois que as pipas de pinho e grápia, quando não devidamente parafinadas a quente, transmitiam gosto amargo e resinoso.

Logo depois chegou o aço carbono revestido de tinta epóxi, a novidade da época, que permitia conservar os vinhos, em especial brancos, em recipientes inertes. Era a fase da busca de brancos frutados, limpos, delicados. Foi necessário buscar algum gás inerte para manter a superfície impecável e o nitrogênio foi o escolhido. Tempo depois descobrimos que, ao absorver o carbônico naturalmente presente nestes vinhos, o nitrogênio deixava os brancos meios “chatos”, planos, com poucos aromas. Veio a mistura CO2 e N2 e o problema acabou.

Quando os preços ficaram menos pesados foi a vez da chegada do aço inoxidável, agora com cintas para refrigeração, fantásticos. Para nós enólogos empenhados em brancos saborosos era a perfeição na forma de tecnologia. Tínhamos vencido uma etapa brava.

Já nos anos oitenta, quando o objetivo era elaborar um “vinho tinto de guarda”, que desafiasse o tempo, foi inevitável pensar nos tintos de Bordeaux, robustos, maturados e envelhecidos por longos períodos. Foi a vez da madeira mais nobre, o carvalho e no formato mais adequado, a barrica de 225 litros.

Carvalho americano ou francês? Só uma prova com 50 barricas de cada tipo importadas especialmente nos permitiu concluir que nada substituía o francês, mais intenso, refinado, delicado.

Mas de que florestas, de que granulometria, que grau de porosidade? A decisão foi Never e Alliers, as medianamente porosas, evitando as feitas com duelas serradas, para evitar vazamentos.

A partir daí parece que o binômio aço inoxidável / barrica se transformou na fórmula mágica para elaborar vinhos tintos de qualidade.

O que quero discutir é se isso é suficiente, se é assim que se atinge qualidade superior.

Me preocupa, em especial nos novos empreendimentos nos quais o “retorno de capital” é calculado em planilhas, matematicamente, que a variável TEMPO não seja considerada fundamental.

E aí volta à minha memória a importância do recipiente de madeira de maior tamanho. Por quê?

A barrica é fantástica, mas pelo pequeno tamanho os vinhos que passam por ela devem depois, necessariamente, serem envelhecidos na garrafa por pelo menos um ano. Caso contrário, o aroma e sabor do carvalho abafará a tipicidade, o caráter varietal, a naturalidade do vinho.

Carvalho muito marcante cansa, satura, impregna e muitas vezes a barrica se nivela aos chips. Se não houver paciência ou capital ou vontade de envelhecer o vinho antes de comercializá-lo, é melhor evitar a barrica nova por longos períodos.

O inoxidável é fantástico, neutro, protetor, seguro, mas impede a maturação que deve ser feita, nestes casos, através de sucessivas trasfegas, com as consequências que conhecemos.

Acho que, repetindo minhas palavras do inicio deste artigo, continuo aprendendo, observando e entendendo.

Seria ótimo dar mais importância à madeira de carvalho de maior volume, superior a 1 ou 2 mil litros. Guardar vinhos tintos nestes recipientes ao longo dos anos permitirá voltar um pouco aos velhos tempos, onde a corrida era pela qualidade, pelo sabor cativante, convidativo, onde a casta comandava o espetáculo.

Menos álcool, menos madeira, menos fruta, mas sim UM POUCO DE TODOS.

Os Bajda ainda estão em Mendoza produzindo tonéis, redondos, ovais, lindos, práticos e eficientes.

Quem sabe alguém tome a dianteira?

 

 

 

 

 


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