O pequeno Uruguai, em novo ciclo, produz grandes vinhos

O pequeno Uruguai, em novo ciclo, produz grandes vinhos

Pizzorno: a parcela de Moscatel foi retirada

Na frente do vinhedo que rodeia a adega da vinícola Pizzorno, situada em Canelones, Uruguai, há uma parcela vazia, ocupada por ervas e mato. Até a safra deste ano era plantada com Moscatel de Hamburgo, uma uva vinífera tinta de qualidade mediana, que foi arrancada e será substituída por Tannat, a casta emblemática do país, com maior potencial.

A decisão da família Pizzorno, que parece encerrar um ciclo e iniciar outro, é um pouco o símbolo do que acontece hoje na vinicultura uruguaia. Em pouco mais de 30 anos os produtores locais começaram a entender que o mercado não aceitava mais os vinhos rústicos que ofereciam, iniciaram a reconversão dos vinhedos, investiram em tecnologia e, principalmente, aprenderam a conviver e a trabalhar com a Tannat.

Depois de fazer a lição de casa, estão prontos para iniciar uma nova etapa, dar um novo salto. Primeiro informaram ao mundo que o Uruguai existe, que mudou e produz vinho. Agora, com o país já conhecido, querem mostrar que oferece produtos com qualidade consistente.

As vinícolas, em sua maioria familiares, se reinventam, com a entrada das novas gerações de herdeiros e enólogos. E o bom momento vivido pela vinicultura do Uruguai também atrai investidores de fora, em projetos modernos e caprichados, como Narbona, Viña Edén, Sacromonte e, em particular, o da grandiosa Bodega Garzón, hoje inegavelmente um ícone uruguaio.

Visita a 14 bodegas. Aqui, Pisano, em Progreso

Em recente viagem ao país, organizada por Uruguay Wine, ligado ao Inavi, o Instituto Nacional de Vitivinicultura, foi possível acompanhar este novo ciclo. Um grupo de jornalistas visitou 17 bodegas e provou os rótulos de outras oito. Brasil Vinhos participou.

O Uruguai tem 3.4 milhões de habitantes, 6.300 hectares de vinhas, 900 viticultores e 176 vinícolas, que produzem 74,5 milhões de litros por ano. Desse total, 80% se referem a vinhos de mesa – vendidos em bag in box ou garrafões de 5 litros, consumidos basicamente no mercado interno – e 20% são vinhos finos, classificados como VCP – Viños de Calidad Preferencial. Todos são produzidos com uvas viníferas, mas apenas os VCP podem ser exportados e são eles que despertam nosso interesse. O Brasil é seu principal destino.

Além da Pizzorno, Garzón, Viña Edén e Sacromonte, já mencionadas, visitamos as bodegas Familia Dardanelli, Spinoglio, Pisano, Marichal, Establecimiento Juanicó/Família Deicas, Antigua Bodega, Bouza, Ariano, Giménez Méndez, Viñedo de los Vientos, Varela Zarranz, Alto de la Ballena e Braco & Bosca. E provamos os produtos das casas De Lucca, Castillo Viejo, Viña Progreso, Artesana, Familia Traversa, Narbona, Leonardo Falcone e Cerro Chapéu.

Algumas delas ainda estão em estágio de transformação. Encontramos vinícolas familiares instaladas em construções antigas, descuidadas, com equipamentos velhos. Mas importa ressaltar que a imagem do país é feita pelas casas que foram à luta, se renovaram, desafiaram o mercado externo e conquistaram seu lugar ao sol. São estas que fazem a diferença, pois seus vinhos são excelentes.

Bodega Marichal, em Las Violetas, Canelones

Na viagem, foi possível confirmar tendências e novos caminhos seguidos no Uruguai de hoje. Além da Tannat, sempre presente, aparecem bons tintos de Syrah, Cabernet Franc e Marselan – estes ainda em evolução. Há ainda certa agitação em torno da Albariño, que muitos produtores acreditam ser, para os brancos, o que a Tannat representa para os tintos uruguaios.

A busca por terras em Maldonado, no leste do país, perto do Atlântico, mais que tendência, é uma certeza. A influência das brisas frias do oceano proporciona o amadurecimento lento e completo das uvas e vinhos com estrutura e frescor. Estão lá as vinícolas Alto de la Ballena, Garzón, Viña Edén e Sacromonte e já têm vinhedos na região Bouza, Familia Deicas e outras empresas. Maldonado será tema da próxima reportagem de Brasil Vinhos.

Chama a atenção ainda o investimento no enoturismo. Muitas vinícolas se prepararam para receber visitantes, que conhecem os vinhedos, percorrem a adega, provam e compram seus vinhos. A grande maioria dos turistas é do Brasil. “Antes os brasileiros vinham ao Uruguai pelos cassinos”, comenta Virginia Stagnari, dona, com os filhos, da Antigua Bodega, próxima a Montevidéu. “Hoje vêm pelos vinhos e gastronomia. Os cassinos ficaram em terceiro lugar”.

 

O país

Spinoglio: vinhedo na zona de Montevidéu

Nosso vizinho é o quarto maior produtor de vinhos da América do Sul, atrás de Argentina, Chile e Brasil. É pequeno, perto por exemplo, da Argentina, que tem 221.500 hectares de vinhas e produz 1,1 bilhão de litros de vinho por ano. Mas tem suas particularidades. Localiza-se entre os paralelos 30 e 35 de latitude sul, a mesma faixa em que estão as vinhas de Austrália, África do Sul, Argentina e Chile. Hoje todos os vinhedos uruguaios são monitorados por georreferenciamento.

A produção de uvas está agrupada em cinco grandes áreas. A zona sul, a mais importante, concentra 80% das vinícolas do país, na zona rural de Montevidéu, em San José e, principalmente, no Departamento de Canelones, próximo da capital. Sofre grande influência do rio da Prata, cujo estuário alcança quase 200 km de largura e se mistura com o Atlântico. Outra zona tradicional é a Sudoeste, também banhada pelas águas do Prata, com antigas vinícolas no departamento de Colônia.

Na zona Central e Norte, que tem clima quente, as uvas amadurecem mais cedo nos vinhedos de Durazno; e Rivera, na fronteira com o Brasil, é área de colinas e terras vermelhas. A Zona Litoral, embora tenha este nome, segue ao longo do rio Uruguai, que se estende até o delta do Prata. Há vinhas em Paysandú, com solos calcários, e no Departamento de Salto.

Por fim, a região de vinicultura mais nova, em ascensão, é a Zona Leste, área de influência atlântica por excelência, em terras do promissor Departamento de Maldonado. Ali se localizam os conhecidos balneários de Punta del Este e José Ignacio.

O Uruguai, terra de planícies extensas e ensolaradas, e colinas baixas, de modo geral tem clima temperado pelas três grandes concentrações de água que o cercam – o estuário do Prata, o Oceano Atlântico e o rio Uruguai. O Atlântico é presença essencial. A corrente fria das Ilhas Malvinas, que procede da Antártida e banha boa parte do país, dá origem a brisas frescas que à noite sopram do mar para o interior. Isso ajuda a baixar a temperatura ambiente, mesmo no verão, e faz aumentar a amplitude térmica, a diferença entre os dias quentes e as noites amenas, favorecendo a lenta maturação das uvas e a acidez natural.

Fernando Deicas: influência do Atlântico

“As águas do rio da Prata e do Atlântico têm no Uruguai papel semelhante ao que as altitudes elevadas representam para os vinhedos argentinos”, diz Fernando Deicas, que comanda o grupo Establecimiento Juanicó/Familia Deicas. Refere-se ao fato de que em Mendoza os produtores argentinos têm buscado plantar vinhas em terrenos altos, para fugir do calor desértico e elevar o frescor dos vinhos.

Por isso, segundo Deicas, a viticultura uruguaia está voltada para o mar ou para o estuário do Prata. Mesmo Canelones sofre esta influência, pois fica a apenas 22 km em média da bacia de Montevidéu.

Chove mais no Uruguai, do que no Chile ou na Argentina. Em média, varia de 900 mm a 1.150 mm por ano. A forte umidade sempre foi um risco para agricultores menos avisados que, para não ter prejuízos, muitas vezes colhiam as uvas antes de atingirem plena maturação fenólica. O resultado eram vinhos rústicos, com taninos verdes, uma das causas da má fama que a Tannat teve no passado.

Várias soluções foram buscadas para manter a podridão longe das uvas. Por exemplo, muitos produtores recorrem a métodos de condução especiais, como lira e espaldeira alta, em que os cachos não ficam perto do chão. O vento, constante em várias regiões, como Atlântida, na área de Canelones, é outro aliado para secar o terreno.

 

A renovação

Antigua Bodega: capricho de um jardim

O Uruguai é menor do que o Estado do Paraná, no Brasil. Tem 176 mil km², pouco mais de 3 milhões de habitantes – e, brincam alguns, 12 milhões de vacas. O consumo de carne per capita é um dos mais altos do mundo (50 kg ao ano), o que ajuda a explicar o sucesso dos Tannat, tintos com vocação especial para acompanhar assados, o forte da culinária local.

A ligação da casta com o país é antiga. Como se sabe, a Tannat é originária das áreas de Madiran e Irouléguy, no sudoeste da França, e foi trazida ao Uruguai em 1870 pelo imigrante francês basco Pascual Harriague, que anos antes havia instalado uma pequena bodega em Salto, noroeste do país. A uva depois se espalhou por outras regiões. Nestes mais de cem anos, sofreu adaptações, mutações e perdeu de vista as origens. Passou a ser chamada de Harriague, o nome de seu introdutor.

Décadas mais tarde, estudos ampelográficos mostraram que a Harriague era a Tannat francesa. Dava tintos com muita cor e excessivamente tânicos, adstringentes – não por acaso, o nome da uva faz referência à sua grande carga tânica. Os uruguaios, que estavam entre os maiores bebedores de vinho do mundo (até o final dos anos 1990 o consumo per capita chegava a 40 litros por ano), tomavam sem reclamar, porque na época não havia outro tipo de vinho.

Aos poucos o consumo interno caiu, o mercado mudou. A crise bateu por volta de 1976. Quase não se vendia vinho, e os mais conscientes tentavam descobrir saídas. O engenheiro e enólogo Reinaldo de Lucca, dono da vinícola que leva seu nome de família, em Canelones, era um deles. “Um grupo de produtores começou a analisar os motivos da queda nas vendas e descobriu que um dos problemas era a falta de qualidade dos vinhos”, lembra ele. “Precisava melhorar”.

Reinaldo De Lucca e a filha Agostina

As mudanças começaram a acontecer e avançaram pelos anos seguintes. Donos de vinícolas se reuniam em grupos (CREA) para debater a situação de cada casa. Chamaram técnicos argentinos e chilenos para dar consultoria às famílias locais. Segundo De Lucca, em 1980 teve início intercâmbio cultural com a França, que enviou técnicos importantes ao Uruguai, como o professor Denis Boubals (1926-2007).

Nos vinhedos da época predominavam uvas híbridas. Mesmo castas viníferas, como a Tannat, apresentavam vírus ou eram plantadas misturadas com outras cepas. Pioneiros como Dante Irurtia, de Bodegas Irurtia, e Javier Carrau, de Bodegas Carrau, e o próprio Reinaldo de Lucca viajaram para conhecer o que se fazia em outros países e voltaram com ideias novas. Em 1982 vinícolas uruguaias importaram da França as primeiras mudas sadias e certificadas.

Em 1985, com a redemocratização do país, depois de 12 anos de ditadura civil-militar, o novo governo instituiu um programa de reconstituição da viticultura uruguaia, com empréstimos do Banco Interamericano (BID). Dois anos depois, a criação do Inavi acelerou a reconversão, que chegou a 75% dos vinhedos, com mudas sadias e seleção clonal. O processo terminou em 2000.

Foi um avanço e o Uruguai passou a mostrar a cara no mercado internacional. A concorrência era grande. A Tannat está em toda parte no país, mas somente no final dos anos 1980 alguns produtores se deram conta de que a casta era uma especialidade uruguaia e com ela as vinícolas tinham chance de competir no concorrido mercado mundial. Um dos primeiros a intuir isso foi Javier Carrau, sócio da bodega Carrau.

Em depoimento ao livro “Uruguay Vinos Unicos”, escrito por André Dominé para Wines of Uruguay (Montevideo – 2013), ele conta que em 1989 levou uma garrafa de Carrau Tannat pela primeira vez à feira Anuga, na cidade de Colônia, na Alemanha. Lembra que dois anos depois a Camara de Industrias del Uruguay contratou como consultores dois winemakers californianos (um deles era Paul Hobbs) e eles recomendaram apostar mesmo na Tannat, desde que de alta qualidade.

Establecimiento Juanicó

Na teoria, parecia fácil. Na prática, nem tanto. As primeiras exportações datam dessa época. “Começamos a exportar em 1995, com muita dificuldade”, lembra Edgardo Etcheverry, que administra a tradicional bodega Castillo Viejo, em Canelones, com os irmãos Alejandro e Ana. “O Uruguai não era conhecido como país e muito menos como produtor de vinho”.

Muitos donos de vinícolas achavam que a reconversão da vinha já havia resolvido os problemas. Logo descobriram, pela comparação com vinhos de outros países, que os produtos uruguaios precisavam subir de patamar. Apesar das mudanças, ainda predominavam os Tannat rústicos, com taninos verdes.

Foi preciso então dar um segundo passo, com investimentos na adega, compra de máquinas mais modernas, tanques de inox com controle de temperatura, introdução de barricas de carvalho novo. E, principalmente, alterar o manejo no campo para suavizar a uva mais icônica do país.

 

Natureza da Tannat

Tannat: vigorosa e tânica por natureza

Nos vinhedos uruguaios as tintas predominam, com 80% do total. A Tannat é de longe a mais plantada, com 1.631 hectares (26,6% do encepamento), seguida de Moscatel de Hamburgo (1.163 ha – 18,9%) e Merlot (689 ha – 11,2%). Na ala branca, a liderança é da Ugni Blanc, com 646,5 ha, ou 10,5% da área ocupada por uvas, vindo depois a Sauvignon Blanc (129,9 ha – 2,1%).

A Tannat, uva de perfil aromático não muito pronunciado, tem ciclo vegetativo médio. No Uruguai é colhida em março, antes da Syrah e da Cabernet Sauvignon, que apresentam ciclo longo. Gosta de vários tipos de solo e de clima seco, mas sofre com o estresse hídrico. Por isso se dá bem em solos argilosos, que conservam a umidade.

Muita gente acha que é excessivamente tânica. Na verdade, esta é sua característica. “Querer domar a Tannat é ir contra sua natureza”, ressalta Daniel Pisano, que comanda a vinícola da família, em Canelones, com os irmãos Eduardo e Gustavo. Segundo ele, com a Tannat dá para fazer tudo, é um bloco de pedra que se pode moldar e transformar em obra de arte. “O que fizemos nos últimos foi aprender a trabalhar a Tannat”, completa Daniel.

A casta é muito vigorosa. Deixada sem controle, como se fazia no passado, e ainda acontece no caso dos vinhos de mesa, chega a ter rendimentos de 25 mil kg por hectare, o que é um exagero. Dá tintos rascantes, tânicos. O segredo, de acordo com Daniel, é reduzir os rendimentos. Para vinhos finos, deve ficar com menos de 10 mil kg por hectare.

Gustavo Pisano, o enólogo da casa, reforça a importância de baixar os rendimentos e acrescenta: “O tanino é uma virtude, mas é preciso saber trabalhar. Antes nos tintos se buscava a concentração, a forte extração. Agora não. Procuramos estrutura, com elegância, fazendo macerações mais curtas, encontrando o melhor momento para a colheita, usando a microoxigenação para arredondar os taninos”.

Bouza: parcela especial de Tannat

Nesse particular é grande a contribuição dos jovens, herdeiros ou enólogos, que assumem postos de comando nas casas. Eles fizeram vindimas e tiveram experiências em outros países, e ao voltar, passaram a aplicar os conhecimentos adquiridos. “As gerações mais novas não têm receio de reduzir os rendimentos, tirar cachos, fazer raleios e podas verdes, para dar mais equilíbrio às plantas e concentração ao vinho”, destaca Fabiana Bracco, que trabalha para a Narbona, em Carmelo, zona de Colônia, e administra sua própria vinícola familiar, a Bracco & Bosca, em Atlântida, Canelones.

O estágio em carvalho ajuda a moderar a adstringência da casta. Muitos enólogos também tentam amaciar a Tannat acrescentando ao lote Merlot ou outras variedades. É grande o número de tintos de corte no catálogo das bodegas locais. Ainda assim, bem trabalhada a Tannat tem potencial para, sozinha, proporcionar vinhos elegantes e saborosos.

Depois desse esforço de aperfeiçoamento, os rótulos uruguaios mostram atualmente ótimas credenciais para se apresentar ao mercado mundial. O consumo interno, embora tenha diminuído, permanece alto – 18 litros per capita por ano, segundo a OIV, ou até 22 litros por pessoa, de acordo com outras fontes – mas as vendas internacionais trazem prestígio e dólares para as vinícolas que se modernizaram.

“Estamos vivendo um momento desafiante”, resume Martin López, o jovem gerente de Comércio Exterior do Inavi e Uruguay Wine. “Somos pequenos em escala, todos os insumos que usamos são importados, mas estamos fechando um ciclo iniciado com a reconversão dos vinhedos e que foi muito bem sucedido”. Na visão de Martin, as pessoas hoje querem conhecer coisas novas, o que favorece o Uruguai. “Somos no mundo um país exótico, por descobrir”, completa. “E nossas vinícolas se prepararam para isso”.

 

Enoturismo

Sacromonte: hotel rural no meio da vinha

Com quase 3 milhões de litros importados ao ano, o Brasil é o principal mercado para os vinhos uruguaios no exterior. Além de já serem bastante conhecidos por aqui, atraem visitantes às vinícolas dos nossos vizinhos, pela proximidade entre os dois países. Os uruguaios são conhecidos pela hospitalidade, por seu jeito tranquilo de levar a vida, por suas belas paisagens e gastronomia. Tudo isso está presente nos passeios às bodegas.

De maneira geral, os programas custam a partir de 30 dólares, com prova de quatro vinhos, aumentando de valor se incluirem rótulos de gama alta ou refeições. Algumas empresas oferecem outras possibilidades. Bouza, Establecimiento Juanicó e Garzón têm restaurantes de grande nível. As vinícolas Pizzorno, em Canelones, e Sacromonte, em Maldonado, montaram hotéis rurais, pequenos e charmosos, no meio dos vinhedos.

 

Os vinhos

Vinhos na Pisano

Na visita de sete dias ao Uruguai provamos perto de 175 vinhos, entre espumantes, brancos, rosés, tintos e doces. Avaliamos vários deles aqui, quase todos presentes no mercado brasileiro. Chamaram a atenção pela proposta, pelas uvas utilizadas, pelo trabalho do enólogo. Ajudam a entender o que acontece de melhor no Uruguai neste momento.

Vamos mostrar desta vez rótulos produzidos nas áreas de Canelones, Montevidéu e zonas ao norte. Ficam para a próxima reportagem de Brasil Vinhos os produtos das vinícolas localizadas nas zonas de influência mais direta do estuário do Prata, como Colônia e Atlântida, ou perto do oceano Atlântico, a exemplo de Maldonado.

 

 

Bouza Tannat Parcela Unica B28 2017

Bodega Bouza – Canelones – Uruguai – Decanter – R$ 388,80 – Nota 94

A família Bouza entrou no mundo do vinho apenas em 2002 e já faz coisas incríveis. Juan Bouza e Elisa Trabal chegaram da Galícia, na Espanha, em 1955, ganharam dinheiro na indústria de pães congelados e de massas e depois compraram uma velha bodega construída em 1942 em Melilla, a 20 km de Montevidéu, quase abandonada. Transformaram a propriedade em um cartão de visita dos vinhos uruguaios e, junto com o enólogo Eduardo Boido, um dos mais experientes em atuação no país, chamaram a atenção de todo o mundo por seus vinhos de altíssimo nível. Possuem 50 hectares de vinhedos em Las Violetas (Canelones), Melilla (Montevidéu) e, mais recentemente, na promissora Pan de Azúcar, Maldonado, a 3 km do Atlântico. No total, o grupo produz 150 mil garrafas de vinho fino por ano. Mais um passo foi dado com a entrada nos negócios da nova geração da família. Juan e Elisa têm cinco filhos, e dois, o engenheiro industrial José Manuel e Pablo, já trabalham na empresa. Os vinhedos da bodega Bouza são analisados e divididos em parcelas, em média com 0,50 ha., com características próprias. São acompanhadas de perto e suas uvas, vinificadas separadamente. Algumas se destacam, como a Tannat da parcela B28 de Las Violetas, de solo calcário, origem deste tinto impressionante, que amadurece por 16 meses em barricas novas de carvalho americano. Há no nariz fruta vermelha, como framboesa, acompanhada de chocolate e notas florais. Na boca é encorpado, concentrado, com taninos firmes, maduros e tem muita elegância (15%).

 

Bouza Albariño 2019

Bodega Bouza – Canelones – Uruguai – Decanter – R$ 193,30 – Nota 91

Provavelmente por terem os proprietários vindo da Galícia, na Espanha, terra da Albariño, Bouza foi pioneira no plantio desta variedade, que pode se tornar a casta branca ícone do Uruguai. Aqui, vem dos vinhedos de Las Violetas, Canelones, plantados em 1999, e de Melilla, Montevidéu. Rico de nariz, oferece aromas de mel, flor de laranjeira e outras notas cítricas, como limão, pera e damasco. Na boca é seco, delicado, com muito boa acidez. Tem presença e personalidade (14,5%).

 

Preludio Barrel Select Lote 102 Tinto 2015

Familia Deicas – Canelones – Uruguai – Todovino/Interfood – R$ 450 – Nota 94

Quando foi lançado, no início da década de 1990, o tinto Preludio projetou o nome da família Deicas e foi o primeiro a mostrar ao mundo que o Uruguai tinha grande potencial para produzir vinhos finos. Na época, integrava o portfólio de Establecimiento Juanicó, base do grupo. Em 2010, Fernando Deicas, que comanda as vinícolas, fez a separação, reservando a marca Familia Deicas para seus vinhos de alta gama. Familia Deicas entrega 200 mil garrafas por ano. Fernando conta com a ajuda decisiva do filho Santiago Deicas, um dos expoentes da nova geração de herdeiros do setor. Hoje, as atenções do grupo se voltam para os vinhos originados dos novos vinhedos comprados em Garzón, próximo do Oceano Atlântico, mas Preludio segue sua trajetória de sucesso em Canelones. Produzido em anos excepcionais, com seleção de barricas, ganhou rótulo novo, com desenho de notas musicais. Mantém a receita clássica de mesclar diferentes castas – Tannat, Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Petit Verdot – cuja proporção varia conforme a safra. Amadurece por 24 meses em barricas de carvalho francês. O 2015 é potente, encorpado, com muita elegância. Rico de aromas, oferece cassis e algo de figo, em meio a notas florais, de alcaçuz e tabaco. Untuoso, bem estruturado, é firme e profundo, sempre com equilíbrio. Delicioso (13,5%).

 

Don Pascoal Red Blend 2017

Establecimiento Juanicó/Familia Deicas – Canelones – Uruguai – Interfood/Todovino – R$ 85 – Nota 90

Com negócios na área de transportes, Juan Carlos Deicas entrou no mundo do vinho em 1979 ao comprar a bodega Establecimiento Juanicó, junto à cidade de mesmo nome. Fundada em 1830 por Don Francisco Juanicó, a empresa passara por vários donos, até acabar nas mãos do Estado, que ali produzia conhaque. Juan Carlos deixou a administração da vinícola para o filho Fernando Deicas que, trazendo especialistas de fora, modernizou seus vinhos, recuperou vinhedos e as construções antigas, transformando Juanicó e sua marca Don Pascual em uma referência na vinicultura uruguaia. Um símbolo da convivência entre passado e presente é a centenária cave subterrânea da propriedade, que mantém condições naturais de temperatura e umidade e onde são afinados os melhores vinhos da família. No total, Establecimiento Juanicó administra 307 hectares de vinhedos próprios e outros 150 ha. de viticultores parceiros. Fernando e o filho Santiago Deicas comandam as três vinícolas do grupo – Juanicó, Familia Deicas e Pueblo Sol – que produzem 6 milhões de garrafas por ano, metade de vinho de mesa. Don Pascoal Red Blend, da linha Millenials, é um dos bons tintos do catálogo de Juanicó. Entram no corte, dependendo do ano, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Marselan, Tannat e Merlot. Apresenta frutas vermelhas, como framboesa e cereja, além de notas florais. Tem bom corpo, acidez firme, taninos maduros e bom frescor final. Vai bem com comida (13%).

 

Il Nero 2011

Antigua Bodega – Montevidéu – Uruguai – FolksWine – R$ 900 – Nota 94

A Antigua Bodega, em Santos Lugares, La Paz, a 20 km da capital Montevidéu, parece um jardim, de tão bem cuidada. Os vinhos não ficam atrás. No trabalho há a mão de três mulheres – Virginia Stagnari, a proprietária, sua filha Mariana Meneguzzi e a enóloga Laura Casella. Antes, a vinícola tinha o complemento Stagnari no nome, hoje meio que deixado de lado, para não confundir com a vizinha H. Stagnari, pertencente a parentes. Virginia e os filhos são donos de 10 hectares em Canelones, rodeados de pedreiras, com solos argilo-arenosos sobre manchas de granito rosa; e outros 20 ha. em Melilla, ali perto, mas já na zona rural de Montevidéu. Produzem 150 mil garrafas por ano. Com uvas compradas de terceiros fazem cerca de 1 milhão de litros de vinhos de mesa, vendidos no mercado interno. Os rótulos realmente interessantes da casa são de vinhos finos, como a linha Prima Donna, os magníficos tintos Osiris (Merlot e Tannat) e o top Il Nero. Este é Tannat 100%, de parcelas selecionados do vinhedo de Melilla, Montevidéu, formadas por seleção clonal, com baixos rendimentos. Tem 36 meses de crianza em barricas novas e usadas de carvalho francês e americano e depois envelheceu por dois anos na garrafa. Nos aromas há muita fruta madura, a ameixa, ladeada por notas de alcaçuz, tabaco e chocolate. É expressivo na boca, onde se mostra estruturado, austero, macio e esbanjando elegância. O rótulo é homenagem a Héctor Nelson Stagnari, pai de Virginia, que ampliou o negócio herdado do sogro e sempre foi chamado de Il Nero (14,5%).

 

Osiris Reserva Tannat 2011

Antigua Bodega – Montevidéu – Uruguai – FolksWine – R$ 400 – Nota 93

É um Tannat 100%, a partir de uvas do campo da família de Virginia Stagnari em Melilla, com muita mineralidade. Chama a atenção o fato de ter estagiado por 12 meses em barricas novas de carvalho americano, madeira que costuma marcar o vinho. Aqui se nota a presença da barrica, sem eliminar a fruta, a ameixa e amora. Há ainda notas de café, tabaco e grafite. Encorpado, mantém na boca a fruta madura, junto com taninos finos. É um tinto equilibrado, com elegante final (14%).

 

 

Pizzorno Primo 2015

Pizzorno Family Estates – Canelones – Uruguai – Grand Cru – R$ 599,90 – Nota 93

Sem dúvida um dos melhores tintos uruguaios hoje. A vinícola existe desde 1910 em Canelón Chico e é administrada por Carlos Pizzorno, a mulher, a médica Ana Laura, e o dinâmico filho Francisco, de 26 anos. A família possui 21 hectares de vinhedos, reconvertidos, e produz 150 mil garrafas por ano. Desde 2003 conta com a consultoria do winemaker neo-zelandês Duncan Killiner. Carlos, também enólogo, foi dos primeiros no país a buscar maneiras de oferecer vinhos finos com qualidade, como este, corte de 50% Tannat, 20% Cabernet Sauvignon, 20% Malbec e 10% Petit Verdot, só produzido em anos excepcionais. Cada parcela estagia separadamente por 12 meses em carvalho e outro tanto depois do blend, amadurecendo em seguida mais dois anos em garrafa. Concentrado nos sabores, complexo ao nariz, mostra boa fruta, a ameixa, com notas florais e de especiarias. Encorpado, maduro, tem acidez viva, boa estrutura de taninos e equilíbrio. Um vinho com grande potencial de guarda (13,5%).

 

Pizzorno Tannat Reserva 2016

Pizzorno Family Estates – Canelones – Uruguai – Grand Cru – Nota 90

A vinícola investe no enoturismo, recebe turistas e construiu uma simpática pousada na antiga casa da família. Entre os vinhos que fazem sucesso junto aos visitantes se destaca este Reserva, macio e gostoso. Mostra que a Tannat foi bem trabalhada. Traz frutas vermelhas e notas florais, de especiarias e tabaco. Encorpado, tem taninos que não agridem, regra geral dos rótulos da casa, boa acidez e frescor final (13,5%).

 

De Lucca Libero Tannat Reserve 2017

De Lucca – Canelones – Uruguai – Premium Wines – R$ 102 – Nota 93

Quando os donos de bodegas no Uruguai começaram a acordar para a necessidade de mudar se quisessem apresentar vinhos de qualidade, nos anos 1970, Reinaldo de Luca já era engenheiro agrônomo e sabia o que deveria ser feito. Depois de passar uma temporada nos Estados Unidos, foi convidado a estudar enologia na França. Conhecido pelo humor contido, é um dos melhores winemakers em atividade no país. Divide hoje o comando da vinícola familiar com a filha, a simpática Agostina. A família possui 50 hectares de vinhas em Rio Colorado, em solos argilosos e calcários, com bastante cascalho. De lá saem 400 mil garrafas por ano. Metade é de mesa, mas também há grandes vinhos, como este Reserva denso, concentrado, corte de 95% Tannat e 5% entre as italianas Nero D’Avola e Sangiovese, fermentadas juntas (cofermentação). Lembra ao nariz chocolate e cereja, com toques de eucalipto e grafite. Encorpado, tem taninos maduros e uma acidez que reforça o frescor. Um achado, pelo preço (13,7%).

 

De Lucca Marsanne Reserve 2019

De Lucca – Canelones – Uruguai – Premium Wines – R$ 101 – Nota 91

Um branco seco, gastronômico, com bom peso no paladar. Reinaldo de Lucca diz que gosta de vinhos com identidade, que não sejam apenas tecnológicos, mas traduzam o terroir. É o caso deste Reserva expressivo, que lembra erva-doce, flores, mel e frutas brancas, com algo de maçã cozida. Tem bom volume, textura macia, acidez firme e agradável final. Pela estrutura, pode acompanhar até peixes gordos e carne de porco (12,5%).

 

Arretxea Tannat 2011

Bodega Pisano – Canelones – Uruguai – Mistral – R$ 299,10 – Nota 94

Em sua apresentação na Internet, os irmãos Pisano consideram sua bodega “artesania em vinos finos”. A expressão exprime bem o que fazem, a produção artesanal, em pequenas quantidades, de vinhos de grande qualidade. Em 1914, Don Césare Segundino Pisano, italiano da Ligúria e avô de Daniel, Eduardo e Gustavo Pisano, os atuais dirigentes da casa, instalou-se na cidade de Progreso, Canelones. Começou a trabalhar para um amigo, juntou algum dinheiro e dois anos depois comprou 5 hectares de vinhas. De início plantou Nebbiolo e outras uvas italianas. Mudou para Harriague (a Tannat de hoje), quando viu que um vizinho se saía melhor com a casta. A família mora nas mesmas terras até hoje, em torno do vinhedo original. Para os irmãos Pisano, terroir é uma palavra importante. Trabalham excepcionalmente bem a Tannat, sempre com baixos rendimentos, para amenizar os taninos. O tinto Arretxea é o Gran Reserva da bodega, homenagem dos filhos à mãe, dona María Elsa Arretxea, de origem basca. É um blend que leva em conta a opinião de toda a família e pode mudar dependendo do ano. O predomínio é da Tannat, temperada por Petit Verdot e outras. Afinado entre 18 e 24 meses em barricas novas de carvalho francês, é elegante, complexo, um monumento ao equilíbrio. Nos aromas há de tudo, chocolate, ameixa, jaboticaba, framboesa, especiarias. Potente, macio, mescla com classe taninos, acidez, madeira e fruta. Em suma, um vinho profundo e delicioso (13,5%).

 

Rio de los Pajaros Tannat Reserva 2018

Bodega Pisano – Canelones – Uruguai – Mistral – R$ 117,70 – Nota 91

A família Pisano tem 15 hectares de vinhedos em Progreso e mais 15 ha. em área próxima. O manejo é a chamada lutte raisonée, com intervenção mínima e controle integrado de pragas. O tinto saboroso é da safra de 2018, que foi excelente no Uruguai, dando vinhos de nível elevado. É a Tannat em ótimo momento. Com estágio de 5 meses em carvalho francês, lembra ao nariz chocolate, cereja, amora e especiarias. Tem bom corpo, taninos maduros, acidez firme, balanço e frescor final, marca dos tintos Pisano. A propósito, o nome ‘rio dos pássaros’ é significativo. Na língua dos índios guarani, Uruguai quer dizer exatamente rio de los pajaros coloridos (13,5%).

 

Elisa’s Dream Open Barrel Tannat 2015

Viña Progreso – Canelones – Uruguai – Vinci – R$ 384,70 – Nota 93

Gabriel Pisano, 36 anos, é um dos mais talentosos profissionais da nova geração de enólogos uruguaios. Depois de atuar na África do Sul, Estados Unidos e Chile, voltou à terra natal, onde trabalha na empresa da família, a Bodega Pisano, mas mantém sua própria vinícola, a pequena Viña Progreso, que leva o nome do local onde mora. Sem vinhedos próprios, compra uvas de terceiros, sempre de parcelas rigorosamente selecionadas. Para ele, os baixos rendimentos garantem o equilíbrio e a plena maturidade da Tannat. Segue a receita em seu tinto opulento que, como diz o rótulo, foi fermentado em barricas abertas de carvalho francês, com leveduras indígenas. Em seguida estagiou por 10 meses em barricas normais, fechadas. Rico de nariz, traz notas tostadas, de café, especiarias e champignon, em base de amora e jaboticaba. Estruturado, denso, tem taninos finos, é macio e suculento, com boa acidez e delicioso frescor final. Dele foram tiradas apenas 186 garrafas. O rótulo foi desenhado pela tia e fã de Gabriel que, por sinal, se chama Elisa (14%).

 

Viña Progreso Overground Cabernet Franc 2018

Viña Progreso – Canelones – Uruguai – Vinci – R$ 134,80 – Nota 91

Além da Tannat, Gabriel Pisano trabalha bem outras uvas, como Viognier, Sangiovese e a Cabernet Franc, base deste tinto jovial e sedutor. Com repouso de seis meses em barricas usadas de carvalho francês e americano, surpreende pela maciez e gostosa simplicidade. Há nos aromas ameixa e notas herbáceas, de especiarias e tabaco. Em corpo médio, oferece taninos maduros, sedosos e um conjunto elegante, bem feito. Pronto para beber já, tem estrutura para melhorar com mais alguns anos de adega (13,5%).

 

Marichal Tannat A Grand Reserve 2015

Bodega Marichal – Canelones – Uruguai – Ravin – R$ 190 – Nota 93

A vinícola, criada em 1938 por Isabelino Marichal, espanhol da Ilha das Canárias, é liderada hoje pelos enólogos Juan Andrés e Alejandro Marichal, da quarta geração da família. A empresa possui 80 hectares de terras em Las Violetas, Canelones, dos quais 50 ha. com vinhas. Desses, usa 30 ha. para produzir seus vinhos e vende as uvas restantes para terceiros. Entrega ao mercado 150 mil garrafas por ano. A região tem clima quente, amenizado pelas brisas atlânticas. Ali a Tannat se dá bem, pois o solo argiloso profundo preserva a umidade e evita o estresse hídrico prejudicial à variedade. O tinto top da casa vem de uma parcela única, especial, com 43 anos de idade e baixos rendimentos. Amadurecido por 18 meses em barricas de carvalho francês (80% novas), sem filtração, é generoso nos aromas, que trazem cereja, ameixa, notas florais, de tabaco, especiarias e grafite. Gordo, amplo, macio e muito elegante, é ótima expressão do potencial da Tannat para vinhos de qualidade. Destaque para o frescor final (13,5%).

 

Batovi Tannat T1 Single Vineyard 2016

Bodega Cerro Chapeu – Cerro Chapeu – Uruguai – Vinhos do Mundo – R$ 430 – Nota 93

Há quatro anos a tradicional família Carrau, formada por cinco irmãos, dividiu as propriedades herdadas do pai, Juan Francisco Carrau Pujol. A antiga vinícola Juan Carrau, em Canelones, ficou com Javier Carrau, bastante conhecido dos brasileiros, e seu irmão Ignacio. Já Cerro Chapeu, com vinhedos e adega na área de mesmo nome, no norte uruguaio, área mais quente na fronteira com o Brasil, foi entregue aos outros integrantes da família, o professor e enólogo Francisco Carrau e suas irmãs Margarita, diretora do projeto, e Gabriela. Os três possuem 40 hectares de vinhas no lado uruguaio e 4 ha. na parte brasileira (lançam o primeiro vinho desta última no ano que vem, vinificado na Miolo). Produzem 250 mil garrafas por ano. O rótulo Amat, o tinto icônico do grupo, está na lista de Javier Carrau. Mas perdeu o vinhedo de onde se originava, que está em Cerro Chapéu. Com as uvas de uma parcela especial desta vinha, que tem 40 anos, plantada em solo avermelhado e arenoso, a vinícola de Francisco e irmãs elabora o Batovi, tinto soberbo. Com repouso de 18 meses em carvalho novo e usado, francês e americano, traz ao nariz camadas de fruta, como jaboticaba e amora, junto com notas florais, de lavanda, e tabaco. Firme na boca, tem presença e bom corpo. No conjunto é redondo, elegante, saboroso. Vai longe. O rótulo é inspirado em Batovi Dorados, nome dado aos solos da região e também ao cerro vizinho à propriedade (13%).

 

El Preciado 2016

Castillo Viejo – Canelones – Uruguai – La Pastina – R$ 300 – Nota 92

A bodega Castillo Viejo, fundada em 1927 em San José, é liderada pela terceira geração da família Etcheverry, com ajuda já da quarta geração. Com 50 hectares de vinhedos, produzia apenas vinhos de mesa a granel até 1986. Depois da reconversão da vinha passou a oferecer também vinhos finos, com a marca Catamayor. Hoje elabora apenas vinho fino, de que entrega cerca de 1 milhão de garrafas por ano. El Preciado é seu tinto top, mescla de 56% Tannat, 18% Cabernet Franc, 14% Cabernet Sauvignon, 7% Merlot e 5% Tempranillo, com estágio de 18 meses no carvalho francês novo. Exibe a estrutura da Tannat, enriquecida e suavizada pela fruta das outras castas. Equilibrado, macio, sem excessos, tem boa acidez, frescor e a elegância dos grandes vinhos (14%).

 

Artesana Tannat Reserva 2016

Artesana Winery – Canelones – Uruguai – Wine Lovers – R$ 132 – Nota 92

A bodega Artesana possui 8 hectares de vinhas na zona de Las Brujas. É a única propriedade do Uruguai com uvas Zinfandel – o dono é norte-americano. A produção fica por conta da enóloga Analia Lazaneo Alpuin. O tinto, com repouso de 12 meses em barricas novas de carvalho americano e francês, é austero, quente, mas com taninos de ótima qualidade. Cassis, geleia de amora e notas florais aparecem ao nariz. Encorpado, maduro, redondo, tem agradável final longo. Bom preço, pela qualidade que oferece (14,2%).

 

Giménez Méndez Tannat Premium 2017

Giménez Ménez – Canelones – Uruguai – R$ 120 – Nota 92

A sede da vinícola Giménez Méndez fica no centro da cidade de Canelones, capital do departamento de mesmo nome. Ali existia antes uma bodega bastante tradicional, Vidiella, que produzia vinhos de mesa. Foi comprada em 1991 por Luis A. Giménez, enólogo, e sua mulher, Marta Méndez Parodi, dando origem à nova empresa. Luis morreu em 1996 e Marta continuou o legado, com ajuda dos filhos Luis e Mauro, também enólogos. A família possui 100 hectares de vinhedos em quatro propriedades – Mendoza. em Montevidéu, e os demais, Los Cerillos, Canelón Grande e Las Brujas, em Canelones. No começo, produzia apenas vinhos de mesa. Hoje entrega ao mercado 1 milhão de garrafas por ano, a maioria de vinho fino. Vinho de mesa, cada vez menos. Seu Tannat Premium é muito interessante. Vem da melhor parcela da vinha de Las Brujas, a 17 A. A equipe faz várias passagens pelo vinhedo. Nas primeiras, colhe uvas para o Premium, deixando a última, no final da maturação, para um tinto da gama alta, o Tannat Super Premium. Voltando ao Premium, um tinto encorpado, que passa 12 meses em barricas de carvalho americano e francês (50% novas), os aromas lembram cereja, com notas florais. Tem taninos maduros, é macio, bem feito, elegante e muito fresco. Muito boa relação entre preço e qualidade (15%).

 

Guidaí Detí Gran Reserva 2016

Bodega Varela Zarranz – Canelones – Uruguai

A família Varela Zarranz começou no mundo do vinho em 1933, em Las Piedras, Canelones. Uma década depois comprou uma das adegas mais antigas e bonitas do Uruguai, construída em 1888, em Joaquín Soarez, também em Canelones, a 20 km da capital, onde vinifica seus vinhos até hoje. Possui 110 hectares de vinhedos nas duas áreas e produz 2,5 milhões de litros por ano, sendo 80% de vinhos de mesa. No tinto, o jovem enólogo Santiago Degásperi, 30 anos, propõe um blend de 55% Tannat, 25% Cabernet Sauvignon e 20% Cabernet Franc, simbolizadas por três luas que aparecem no rótulo. Com crianza de 14 meses em barricas novas e usadas de carvalho francês e americano, lembra ao nariz cereja e amora, com notas florais e de chocolate. Tem bom corpo, é maduro, macio, elegante e bem trabalhado. A empresa tinha um distribuidor no Brasil e no momento está  buscando novo importador (13,6%).

 

Leonardo Falcone Tannat Extremo Roble 2018

Bodega Leonardo Leone – Paysandú – Uruguai – Nota 90

A vinícola da família Leone existe desde 1886 em Paysandú, perto do rio Uruguai, no noroeste do país, a 400 km de Montevidéu. Região quente, onde as uvas são colhidas, em média, duas semanas antes que em Canelones. Tem solos pobres, com manchas de calcário. Carolina Leone, da quarta geração da família, conta que a empresa possui 30 hectares de vinhedos e produz 380 mil litros de vinhos por ano, sendo apenas 10% de vinhos finos. O enólogo é Jorge Pehar, radical na defesa de vinhos que chama de sem maquiagem. Alguns de seus tintos, como o Tannat Extremo sem madeira passam da conta, excessivamente extraídos e alcoólicos (17%). Já o mesmo Tannat Extremo estagiado por 8 meses em roble, isto é, em barricas novas de carvalho, é mais equilibrado. Lembra azeitonas pretas, jaboticaba e amora. Os taninos são mais redondos e o resultado final, melhor. Busca importador aqui.

 

Diego Spinoglio Merlot 2016

Bodega Spinoglio – Montevidéu – Uruguai – Nota 90

A bodega, situada em Cuchilla Pereyra, existe desde 1898, mas mudou de nome em 1961, quando foi comprada pela família Spinoglio. Ganhou vida nova ao passar às mãos, em 2009, de Diego Spinoglio e de sua mulher, a arquiteta Alessandra. A propriedade tem 34 hectares, sendo 12 ha. ocupados com vinha. Os rótulos de entrada são da linha Tierra Alta, estando a série Diego Spinoglio em um degrau acima. O Merlot, afinado por 9 meses em carvalho, é maduro, recorda ameixa e geleia de cereja. Com bom corpo, tem taninos firmes e final longo. Madeira e fruta estão presentes e o conjunto deve ganhar com mais tempo na garrafa. Está à procura de importador aqui (14,4%).

 

Dardanelli Marselan Cepa Única 2019

Familia Dardanelli – Montevidéu – Uruguai – Nota 89

É um dos casos que mostram como é recente a renovação da vinicultura uruguaia. A família Dardanelli tem adega desde 1949, na zona de Las Violetas, fez a reconversão dos vinhedos em 1988, mas lançou ao mercado seus primeiros vinhos finos somente em 2015. E isto por insistência da jovem Eliana Comesãna Dardanelli, que começou a trabalhar na empresa e precisou convencer a mãe, Alba Dardanelli, da necessidade de dar um passo a mais no negócio. A bodega tem 30 hectares de vinhas, compra uvas de terceiros e produz 4 milhões de litros por ano, sendo 90% vinho de mesa. A cantina é construção antiga, com 70 anos, e a maior parte dos equipamentos é a mesma desde seu início. No catálogo há este tinto jovial e frutado, sem madeira, bom para acompanhar pratos do dia a dia e pizza. A Marselan, uva em ascensão no país, é um cruzamento de Cabernet Sauvignon e Grenache, desenvolvido na França nos anos 1960. Apresenta ótimo frescor, fruta vermelha madura e, especialmente, notas florais, que aparecem ao nariz e na boca. Busca importador no Brasil (13%).

 

Don Adelio Ariano Tannat 2017

Bodega Ariana Hermanos – Canelones – Uruguai – NOR e Galeria dos Vinhos – R$ 95 – Nota 90

A vinícola foi fundada em 1929 pelos irmãos Adelio e Amilcar Ariano, imigrantes italianos vindos do Piemonte. É administrada hoje pela terceira e quarta gerações da família, incluindo Elizabeth Ariano, sua filha Florentina e o sobrinho Sebastián Ariano, diretor que também que cuida dos vinhedos. Da Ruta 48, em El Colorado, já se veem parte da vinha e a antiga construção de tijolos que abriga a adega. A família possui 30 hectares plantados em ali em Canelones e em Paysandú, noroeste do país, e produz 1 milhão de litros por ano, metade vinhos de mesa. Seu Tannat, feito com seleção de uvas dos vários terroirs e com 12 meses de carvalho, tem taninos maduros, fáceis. Nos aromas há notas florais, ameixa e cereja. Apresenta equilíbrio, persistência e frescor (14%).

 

Traversa Viña Salort Tannat Reserva 2017

Familia Traversa – Montevidéu – Uruguai – R$ 75 – Nota 89

A bodega Traversa é o maior produtor de vinhos do Uruguai em volume. A história é semelhante à da maioria das vinícolas do país. Em 1904, Carlos Domingo Traversa chegou ao Uruguai com os pais, vindos da Itália. Em 1937, já casado com María Josefa Salort, comprou 5 hectares de terra na zona rural de Montevidéu. Em 1956 fundou a bodega com os filhos Dante, Luis e Armando. Hoje os netos estão à frente do negócio. A família possui 300 hectares de vinhedos próprios e ainda compra uvas de terceiros. Produz cerca de 12 milhões de litros de vinho por ano, sendo 4 milhões de litros de vinhos finos. De modo geral são rótulos simples e corretos, de forte apelo popular. No Brasil são vendidos por grandes redes de supermercados. Seu Tannat Reserva, afinado por 9 meses em barricas de carvalho americano, traz notas de ameixa e leve aroma de coco. Jovem, em corpo médio, é fácil de beber, com taninos sem asperezas (13,5%).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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