Degustações especiais apresentam os destaques do guia Descorchados 2020

Degustações especiais apresentam os destaques do guia Descorchados 2020

Nas provas, destaques de 2020

Primeira degustação presencial depois do início da pandemia do novo coronavírus. O jornalista chileno Patricio Tapia e a editora Inner, de Christian Burgos, organizaram esta semana três dias de provas em São Paulo para apresentar a jornalistas especializados, sommeliers, donos de restaurante e representantes de supermercados os principais destaques do Descorchados 2020, o mais importante guia de vinhos da América do Sul.

A edição, como nas últimas versões, analisa vinhos da Argentina, Brasil, Chile e Uruguai. Brasil Vinhos participou de duas destas degustações, cada uma com 19 rótulos. Entre tantos tintos e brancos de nível realmente notável, destacamos abaixo dois exemplares que vale conhecer, produzidos com uma uva clássica nem sempre valorizada por aqui, a Pinot Noir. Por coincidência, ambos do norte do Chile.

Foi tudo diferente este ano. A edição impressa da versão em português do Descorchados foi lançada, como previsto, em março. Aí veio a Covid 19. Nos últimos anos, a apresentação era seguida de degustações especiais, com a presença de Patricio, e de uma feira, em que produtores divulgavam pessoalmente seus produtos. Com o reconhecimento oficial da pandemia no Brasil, e a imposição de restrições pelas autoridades de saúde, o evento precisou ser cancelado e só agora os destaques do guia puderam ser, finalmente, analisados.

Degustação com protocolos de segurança

As degustações desta semana seguiram todos os protocolos de segurança recomendados pelas autoridades de saúde. Foram meio virtuais, meio presenciais. Patricio Tapia comandou as provas de Santiago, no Chile, onde mora. Os enólogos que falaram sobre os produtos destacados estavam em suas vinícolas ou escritórios, todos unidos em live, pela Internet.

Para os convidados, a degustação presencial aconteceu no belo espaço do restaurante Praça São Lourenço, na Vila Olímpia, em São Paulo. Não mais que 20 participantes por turma, sommeliers utilizando protetor facial de acrílico e luvas, taças Riedel perfeitamente esterilizadas, cuspidores individuais, álcool em gel e, principalmente, mesinhas exclusivas para cada provador. Tudo com distanciamento, além de máscaras na entrada e na saída!

A versão em português do Descorchados (há publicações separadas em espanhol para Chile e Argentina) reúne os vinhos dos quatro países e é editada pela aguerrida equipe de Christian Burgos, responsável também pela revista Adega. Junto com Patricio Tapia, participou da avaliação dos vinhos presentes no guia Eduardo Milan, da Inner/Adega, um dos provadores mais competentes da nova geração de especialistas em atuação em nosso país.

Por fim, é preciso ressaltar que o Descorchados 2020 é, mais uma vez, gigantesco! Traz a análise de 4.664 vinhos de 540 vinícolas dos quatro países contemplados, ou seja, 323 a mais que no guia do ano passado. As descrições ocupam 1.236 páginas – 34 a mais que na edição anterior.

Descorchados traça um panorama do que de melhor acontece na vinicultura da América do Sul. Patricio às vezes é considerado bastante generoso nas notas que atribui aos vinhos de que gosta, mas sem dúvida consegue captar o essencial e apontar tendências.

Seguem abaixo alguns dos vinhos que provamos nos dois painéis de que tivemos a oportunidade de participar. Portanto, não fazemos aqui um ranking dos melhores vinhos da América do Sul, e sim uma lista (ótima) entre os tintos e brancos selecionados por Patricio Tapia para contemplar produtos dos quatro países presentes.

As notas indicadas são de Brasil Vinhos. Como os rótulos foram avaliados em condições diferentes, e se trata de opinião pessoal, nem sempre as pontuações coincidem com as do guia. De qualquer forma, há a concordância de que em todos os casos são inegavelmente grandes vinhos. De modo geral, não são garrafas de preço acessível, pelo estilo e nível elevado. Junte-se a isso o chamado custo Brasil.

 

Tabalí Talinay Pai Pinot Noir 2018

Tabalí – Vale do Limari – Chile – World Wine – Nota 96

A vinícola Tabalí, da família do mega empresário Guillermo Luksic Craig, já falecido, foi pioneira no vale do Limarí, no norte do Chile. Apesar do ambiente austero, quase desértico, o clima local sofre influência das brisas frias do Pacífico. O solo tem forte presença de carbonato de cálcio. Os vinhos são trabalhados por uma dupla de respeito – o enólogo Felipe Müller e o viticultor Héctor Rojas. Depois de se destacar por ótimos Sauvignon Blanc e Chardonnay, a casa apresenta agora este Pinot Noir de cair o queixo. Conquista de imediato pelos aromas intensos, típicos da variedade, lembrando pitanga, carne, com notas terrosas e algo salino, mineral. Na boca é um conjunto poderoso, formado por fruta, estrutura, concentração, taninos firmes e, principalmente, equilíbrio e fineza. Enfim, um tinto delicioso. As uvas vêm de uma pequena parcela do vinhedo Talinay, com 1,3 hectare, plantada em 2012 em uma encosta de solos calcários, a partir de seleções massais da Borgonha. Os rendimentos são baixíssimos, somente meio quilo de uva por planta. O vinho fermentou em tanques pequenos e repousou por 12 meses em barricas usadas de carvalho francês. Dele foram produzidas apenas 6 mil garrafas (13%).

 

Tara Red Wine 1 Pinot Noir 2018

Ventisquero – Atacama – Chile – Cantu – R$ 398 – Nota 95

Tara Pinot Noir não é exatamente uma novidade, mas sempre surpreende. Primeiro, pelo local onde é produzido, o deserto de Atacama, o mais seco do planeta, no extremo norte do Chile. Pelas regras da biologia, ali nem poderia nascer uvas. Ainda assim elas crescem e dão vinhos maravilhosos, como este tinto espetacular. Começou como uma aventura da equipe comandada pelo enólogo Felipe Tosso. No Atacama o dono da Ventisquero, Gonzalo Vial, tinha olivais. Por que não cultivar então um vinhedo? A equipe plantou duas pequenas vinhas no vale de Huasco, onde o solo de cal e pedras apresenta manchas brancas, de puro sal. Parece que tudo isso está presente no vinho. Não traz ao nariz aquelas notas típicas da variedade, e sim algo que lembra graveto seco, fumaça de lenha, salinidade. Depois, no copo, surge alguma fruta vermelha e toques de canela. Em corpo médio, tem boa estrutura de taninos, acidez e frescor. Delicado e fino, é envolvente e permanece muito tempo na boca (13%).

 

Vik 2013

Vik – Vale de Cachapoal – Chile – Wine.com – R$ 998, 88 – Nota 94

A vinícola pertence ao norueguês Alexander Vik, empresário do setor hoteleiro. Nos anos 2000 ele comprou 4.325 hectares de terras no centro do vale de Cachapoal e ali mandou plantar 326 ha. de vinhas. Seu tinto, conduzido pelo enólogo Cristián Vallejo, tem já sete anos de idade, mas mantém força e vivacidade, em um conjunto elegante. Na safra provada é corte de 67% Cabernet Sauvignon, 17% Cabernet Franc e 13% Carmenère, com estágio de 24 meses no carvalho francês. Oferece aromas de ameixa, tabaco, especiarias e um toque mineral. Taninos finos, boa acidez, frescor, tudo nos lugares certos. A madeira não esconde a fruta fresca. Mostra que um grande vinho não precisa ser encorpado e potente, e sim ter equilíbrio (14%).

 

Petreo Malbec 2016

Caliterra – Vale de Colchagua – Chile – Vinhoeponto.com.br – R$ 310 – Nota 94

A bodega Caliterra nasceu em 1992 de uma parceria entre Eduardo Chadwick e a vinícola californiana de Robert Mondavi. Em 2004 Chadwick adquiriu todo o controle da empresa e a incorporou ao grupo Errázuriz, de sua família. Quem cuida dos vinhos é o enólogo Rodrigo Zamorano. O ano de 2016 foi difícil, mais frio e chuvoso que o habitual no Chile, mas quem trabalha bem conseguiu ótimos vinhos, como este Malbec. Vem de uma zona mais temperada do vinhedo plantado em área alta de Huique, o que o torna diferente dos Malbec argentinos, pelo menos aqueles que esbanjam fruta madura. Estagiou na adega por 14 meses, sendo que 45% do lote permaneceram em barricas usadas de carvalho francês e 55% em ânforas de barro. Chocolate, cassis e notas florais aparecem ao nariz. Untuoso, oferece acidez, frescor e gostoso equilíbrio (12,5%).

 

House of Morandé 2017

Morandé – Maipo – Chile – Banca do Ramon – R$ 499,90 – Nota 94

A vinícola criada em 1996 pelo grande Pablo Morandé surgiu em Casablanca, próximo do oceano Pacífico. Hoje em mãos do grupo Juan Yarur, estende-se por outros vales chilenos. É o caso deste ícone da casa, que vem do Maipo. O enólogo Ricardo Baettig observa que 2017, ao contrário do anterior, foi um ano muito quente. Para obter frutas mais frescas, e sem sobrematuração, optou por antecipar a vindima em quase um mês em relação ao usual. Deu certo. No corte predomina a Cabernet Sauvignon (77%), completada por Cabernet Franc e Carignan. Embora esteja há mais de duas décadas no portfólio da vinícola, a edição deste 2017 surpreende. Ao nariz, traz fruta vermelha limpa e várias camadas de aromas. Na boca, destaque para o equilíbrio, fineza e frescor. Ótimo vinho (13,5%).

 

Concreto Malbec 2018

Zuccardi – Vale de Uco – Argentina – Grand Cru – R$ 486, 90 – Nota 94

A família Zuccardi tem presença importante na viticultura argentina. Foi criada em 1963, em Maipú, Mendoza, por Alberto Zuccardi. Evoluiu pelas mãos de seu filho José Alberto, o simpático Zito. E ganhou nova dimensão nos últimos anos por inspiração do jovem enólogo Sebastián Zuccardi, o irrequieto filho de Zito. Os vinhos mais comerciais foram abrigados na bandeira Bodega Santa Julia, aliás bastante populares em supermercados no Brasil. Já o nome Zuccardi ficou reservado para as linhas de nível superior, a partir de vinhedos da família no vale de Uco, a região argentina mais promissora atualmente, de que Sebastián se tornou um dos maiores conhecedores. É aí que entra o notável Concreto Malbec, com uvas de solos calcários da Finca Piedra Infinita, a 1.100 m de altitude, em Paraje Altamira, região de San Carlos, uma das três em que se divide o vale de Uco. Fermentado (com parte dos cachos inteiros) e amadurecido em ovos de concreto, é um tinto algo austero, profundo. Os aromas remetem a ameixa e há notas vegetais. Na boca é concentrado, amplo, com taninos maduros. Tem pureza e energia. Ao ser entendido, abre inúmeras possibilidades (14%).

 

Montes Alpha M 2016

Viña Montes – Vale de Apalta – Chile – Mistral – R$ 1.016, 64 – Nota 94

O primeiro tinto icônico que surgiu no Chile, em 1996, preserva toda a força e elegância, mesmo em um ano frio e difícil, como 2016. A tradição iniciada por Aurelio Montes, pai, e agora mantida por Aurelio Montes, filho, expressa todo o potencial do Vale de Apalta, em Colchagua, em que Viña Montes foi pioneira. O Montes Alpha M parte dos vinhedos plantados em 1994. É um blend de 80% Cabernet Sauvignon, 10% de Cabernet Franc e o restante de Merlot e Petit Verdot. Há nos aromas leve mentol, ameixa, tabaco e notas minerais. Interessante na boca, tem estrutura, taninos maduros, concentração e muito equilíbrio. É reconfortante sentir que um vinho tão emblemático continua em plena forma (14,5%).

 

Miolo Vinhas Velhas Tannat 2018

Miolo Wine Group – Campanha Central, RS – Brasil – Miolo – R$ 170,16 – Nota 92

O tinto brasileiro teve seu brilho nesta seleção de notáveis e é de fato muito bom. Tem história rica. Quando o grupo Miolo, baseado no Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha, comprou a antiga propriedade da Almadén em Sant’Ana do Livramento, na Campanha Central, em 2009, encontrou vinhedos de 1976, os primeiros em espaldeira plantados no Brasil. Estavam um tanto mal cuidados e precisaram ser recuperados. No meio, havia uma vinha velha de Tannat, casta menos usual aqui, mas icônica do Uruguai, no outro lado da fronteira. Antes, as uvas eram usadas apenas em cortes dos tintos da casa. Mas a equipe de Adriano Miolo percebeu que era uma vinha diferenciada, um tesouro escondido que valia a pena explorar separadamente. Nasceu então o Vinhas Velhas Tannat, que ganhou força na safra de 2018, uma das melhores das últimas décadas no país. Foi fermentado em barricas de carvalho francês e ali amadureceu por 12 meses. No nariz há notas florais, de licor de cacau e tostados, em meio a fruta vermelha madura. A carga de taninos é intensa, típica da variedade, o grau alcoólico elevado, só que o conjunto, potente, é bem resolvido pelo equilíbrio dos componentes. Vai longe (15,5%).

 

Preludio Barrel Select Lote 22 Blanco

Familia Deicas – Canelones – Uruguai – Pão de Açúcar – R$ 519,99 – Nota 92

Em 2010, a família Deicas, sediada em Juanicó e uma das mais tradicionais da vinicultura uruguaia, dividiu seus produtos. Manteve algumas de suas marcas conhecidas, como Don Pascual, no guarda-chuva de sua antiga razão social, Establecimiento Juanicó. E reservou o nome Familia Deicas paras seus vinhos mais ambiciosos. Fernando Deicas continua à frente do negócio, mas seu filho mais velho, Santiago Deicas, tem protagonismo crescente e divide a parte técnica da bodega com a enóloga Adriana Gutiérrez. A família conta ainda com a consultoria do célebre winemaker norte-americano Paul Hobbs. Preludio é um rótulo consistente da casa, em tinto e branco, a exemplo deste Barrel Select Lote 22 Blanco. É produzido com 90% de Chardonnay e 10% da perfumada Viognier, e estagia por 10 meses em barricas de carvalho. Aromático, apresenta ao nariz notas florais, erva-doce, abacaxi e maçã. Gordo, amplo, com boa acidez e tensão, mostra ligeiro amargor, logo superado pela untuosidade e frescor (14%).

 

Salton Évidence Brut

Salton – Bento Gonçalves, RS – Brasil – Casa Santa Luzia – R$ 67 – Nota 90

Na lista de destaques de Descorchados não poderia faltar um espumante brasileiro, como o Évidence Brut da Salton. É interessante notar que em 2020 a tradicional empresa da família Salton completou 110 anos de existência. O imigrante italiano Antonio Domenico Salton, de Cison di Valmarino, na região do Vêneto, chegou ao Brasil em 1878, em busca de uma vida melhor. Ele se instalou na colônia de Vila Isabel, a atual Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. E foi ali que em 1910 seus filhos Paulo, Angelo, João, José, Cesar, Luis e Antonio Salton iniciaram o negócio vinícola que se mantém até hoje em mãos da família. Seu espumante, produzido pelo método clássico, em que a segunda fermentação ocorre na própria garrafa, parte de um vinho base preparado com 70% Chardonnay e 30% Pinot Noir. Cerca de 20% do mosto fermentou em barricas de carvalho francês, onde permaneceu por 6 meses. Depois da tomada de espuma, na garrafa, ficou na adega por 24 meses, em contato com as borras, para ganhar complexidade. Aparecem ao nariz pêssego, maçã, notas de frutas secas e leve fumado. Cremoso, persistente, tem como pontos fortes a acidez equilibrada e o frescor. É seco, sem agressividade, pois mantém de 8 a 9 gramas de açúcar residual por litro, dentro das normas brasileiras estabelecidas para o estilo Brut (11,5%).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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