Pedro e Inês, um vinho inspirado em um amor trágico

Pedro e Inês, um vinho inspirado em um amor trágico

Quando um vinho de qualidade tem uma história para enriquecê-lo, parece ganhar algo a mais. É o caso do tinto português Pedro & Inês, produzido pela Global Wines (Quinta de Cabriz), do Dão, por inspiração da Quinta das Lágrimas, hotel-monumento de uma cadeia de luxo em Coimbra, onde a história se passou mais de 650 anos atrás.

Pedro e Inês

Conta-se que no século XIV o rei D. Afonso IV acertou o casamento de seu filho e herdeiro, o príncipe D. Pedro, com a princesa espanhola Dª Constança, filha do Infante de Castela, D. João Manuel. A aliança política interessava às duas casas. Constança chegou a Portugal em 1340, acompanhada de grande séquito, e o casamento logo foi realizado. Entre suas damas de companhia havia uma jovem galega muito bonita, Inês de Castro, por quem D. Pedro teve uma paixão avassaladora. Inês era filha de Pedro Fernandez de Castro, homem rico e poderoso na Espanha, neto de Sancho IV, rei de Castela. O romance, que afrontava os interesses de Portugal e as convenções sociais, abalou a corte e teve final inesperado. É a versão lusa de outros amores trágicos, como o de Aberlardo e Heloisa ou o de Romeu e Julieta.

Pressionado pelos nobres a afastar Inês, em 1344 o rei D. Afonso IV condenou-a ao exílio. A distância não fez diminuir o amor do casal. Meses depois, Constança morreu, ao dar à luz D. Fernando, herdeiro do trono luso. O rei tentou casar novamente o filho com uma princesa. D. Pedro recusou a ideia e preferiu trazer Inês de Castro para morar no Paço de Santa Clara, às margens do rio Mondego, onde hoje se situa a cidade de Coimbra, então capital do reino. Tiveram três filhos. Mas as intrigas da corte espalhavam que os parentes espanhóis de Inês queriam tomar o trono português. Influenciado então por três conselheiros, D. Afonso IV mandou decapitar Inês em janeiro de 1355, quando D. Pedro estava ausente. Ela tinha 30 anos e chorou muito ao ver os carrascos, o que de nada adiantou.

Enlouquecido de dor, o príncipe jurou vingança. Dois anos depois, com a morte do pai, ao subir ao trono como D. Pedro I, perseguiu os três conselheiros e mandou arrancar o coração de dois deles. O terceiro conseguiu fugir. Em 1360, afirmou que havia se casado em segredo com Inês, o que fazia dela rainha. O corpo de Inês foi transferido do convento de Coimbra para o mosteiro Real de Alcobaça, onde eram enterrados os monarcas portugueses, e o novo rei fez construir para ela um mausoléu de pedra branca, ricamente trabalhado. Pedro I também mandou esculpir os detalhes do romance em seu próprio túmulo. Ele morreu em 1367 e foi enterrado perto de Inês. Os dois túmulos ainda podem ser visitados no mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Sobre o de Pedro, está escrito que eles permanecerão juntos “até o fim do mundo”.

O resto é lenda, não confirmada por documentos. Diz-se que, sem esquecer a amada, Pedro exumou o cadáver de Inês e colocou uma coroa em sua cabeça, obrigando os nobres a beijar a mão daquela a quem haviam desprezado em vida. Na memória popular ficou a frase, repetida por tantos, mesmo sem saber sua origem: Agora Inês é morta. Ou seja, ela foi coroada rainha, mas tarde demais. As desventuras dos dois jovens é narrada por Luís de Camões, no canto III dos Lusíadas.

Louvada em verso e prosa, a saga de Pedro e Inês continua viva. O palácio onde eles se encontravam para viver seu amor proibido, a Quinta das Lágrimas, pertence há 300 anos à família de Miguel Judice. O nome faz referência às lágrimas que Inês de Castro verteu ao ser assassinada e que, segundo Camões, se transformaram numa fonte de água pura que ainda corre nos jardins da propriedade. Escreveu o poeta: “As filhas do Mondego a morte escura/Longo tempo chorando memoraram/E por memória eterna em fonte pura/As Lágrimas choradas transformaram”.Quinta das Lágrimas

Localizada na margem esquerda do Mondego, na freguesia de Santa Clara, em Coimbra, a quinta ocupa uma área de 18,3 hectares. Foi mencionada pela primeira vez em documentos de 1326, em plena Idade Média. Tem jardins exuberantes e atrações como a Fontes dos Amores e a Fonte das Lágrimas, sempre em torno de Pedro e Inês. O palácio original foi destruído por um incêndio em 1879 e reconstruído ao estilo dos antigos solares rurais portugueses.

Há 20 anos a Quinta das Lágrimas abriga um hotel-monumento, integrado atualmente à rede Small Luxury Hotels of the World. O prédio passou recentemente por uma grande reforma, encerrada no início deste ano. A restauração custou 1,5 milhão de euros e foi possível graças ao projeto Revitalizar, um fundo de investimento orientado pelo Estado português para modernizar e dar vida nova a construções de importância histórica no país. O Hotel Quinta das Lágrimas é administrado em uma parceria entre as famílias Júdice, Alexandre Almeida e a empresa Oxy Capital.

Quinta das Lágrimas 2A Quinta das Lágrimas tem dois restaurantes e, por se localizar entre duas das mais importantes regiões vinícolas de Portugal, Dão e Bairrada, acumulou ao longo dos anos uma notável coleção de vinhos, tornando-se o que se chama “Wine Destination Hotel”. Em sua extensa carta de vinhos, a estrela é o tinto Pedro & Inês, concebido com duas castas tradicionais da região, que lembram os personagens principais da história. A Baga, estruturada e masculina, remete a Pedro; e a Alfrocheiro, perfumada e feminina, recorda Inês. A união das duas criou um vinho histórico. Mais recentemente, surgiu também a versão em branco do Pedro & Inês, a partir das castas Encruzado e Bical. Por sorte, para provar estas duas joias o consumidor brasileiro não precisa viajar. Os vinhos são distribuídos aqui pela importadora Vila de Arouca.

O Pedro & Inês Tinto é macio e expressivo. As castas Baga e Alfrocheiro são colhidas e fermentadas em conjunto, em barricas abertas de carvalho francês. Depois repousa por 12 meses em barricas novas. Lembra nos aromas fruta madura, com algo de chocolate e baunilha. Tem bom corpo, estrutura, taninos finos e muita harmonia entre carga de fruta, acidez e álcool. Um vinho sedoso e encantador (14,5%). A Vila de Arouca comercializa no momento a safra de 2009. Custa R$ 270,75. Nota 92.

 



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