Portugal, um dos destaques da Expovinis, ganha espaço no Brasil

Portugal, um dos destaques da Expovinis, ganha espaço no Brasil

 

A Expovinis 2017

Durante a Expovinis, a maior feira de vinhos da América do Sul, realizada na semana passada, os visitantes puderam provar tintos e brancos do Brasil, Chile, Itália, Eslovênia, Grécia, Argentina, Uruguai e de muitos outros países. Nesse universo, Portugal foi um dos destaques, com mais de 30 vinícolas participantes, em espaços próprios ou por meio de importadoras. Em outro evento, fora da mega feira, um grupo de produtores da Península de Setúbal também apresentou seus rótulos. A soma de tudo isso mostra que os portugueses estão investindo bastante no mercado brasileiro e ganharam espaço nos últimos tempos.

O esforço alavancou as vendas por aqui: Portugal ultrapassou a Argentina e já é segundo maior exportador de vinhos para o Brasil. Perde apenas para o Chile. Levantamento divulgado pela revista especializada Adega indica que no primeiro trimestre deste ano as vinícolas lusas viram sua participação em nosso mercado crescer em valor FOB de 10,8% para 15,4%, em relação ao ano passado.

 

Grupo Bacalhôa, tintos para todos os bolsos

A Expovinis, realizada em meio à crise econômica que assola o país, revelou ainda que o setor busca saídas para o consumo oferecendo tintos e brancos de preços mais acessíveis. No caso de Portugal, não é diferente. O grupo Bacalhôa, que inclui a tradicional vinícola Aliança, procura oferecer vinhos para todos os bolsos, sem esquecer os rótulos com apelo popular. Na feira, Mário Neves, o incansável embaixador da casa, servia os conhecidos tintos Quinta da Terrugem 2013 (120) e Quinta da Bacalhôa 2013 (R$ 220), ao lado do sempre agradável Aliança Foral Douro 2015 (R$ 34) e do correto JP Azeitão Syrah, Castelão e Aragonez 2016 (R$ 30).

A Adega Alentejana, da família Chicao, que distribui preciosidades como Mouchão, Paulo Laureano, Cortes de Cima, Pera Manca, Marquesa de Alorna, Chocapalha e Pintas, deu a provar aos visitantes da feira também vinhos para todo dia. Entre eles, os tintos Quinta da Alorna Portas do Sol 2015, do Tejo (R$ 27) e Cortes de Cima Courela 2015, do Alentejo (R$ 56).

 

 

ManzWine, os vinhos do ex-goleiro

Em Cheleiros, antiga tradição vinícola

Na área destinada a vinícolas portuguesas na Expovinis, chamou a atenção a ManzWine, da região Lisboa. Seu vinho Pomar do Espírito Santo Reserva 2013 ganhou o Top Ten, principal premiação da feira, na categoria Tintos do Velho Mundo Península Ibérica. Sucesso merecido. A história do produtor André Manz, 52 anos, ex-jogador de futebol brasileiro, é ainda mais interessante.

Paulista de Caraguatatuba, no Litoral Norte do Estado, formado em Educação Física, Manz era goleiro do Taubaté, então na 1ª divisão, e em 1989 foi contratado pelo Estoril Praia, time de Portugal, para jogar na mesma posição. Um ano depois, quebrou o pulso e viu a carreira chegar ao fim. Em vez de voltar ao Brasil, decidiu ir à luta. Começou a trabalhar como professor de ginástica aeróbica e deu cursos por todo o país.

Em 1991 criou o Grupo Manz, que revolucionou o setor de Fitness em Portugal. Ele apresentou aos portugueses a aeróbica coreografada, formou professores e passou a organizar campeonatos nacionais e congressos internacionais. Hoje é líder desse mercado, dono de uma empresa de eventos, de uma franqueadora de programas de ginástica, de uma escola de formação, de uma editora voltada para o esporte e de outros negócios no setor.

Hoje, a casa tem 14 ha. de vinhas

Em 2004, buscando espaço para construir a nova sede da empresa e um grande complexo esportivo, comprou uma antiga propriedade com 6 mil metros quadrados em Cheleiros, pequena e tranquila vila do Concelho de Mafra, a 40 km de Lisboa. Mas ao ver o lugar, a chácara chamada de Pomar do Espírito Santo, ele e a mulher, Margarida, resolveram mudar-se de Lisboa para lá com os filhos Bruno e Guilherme. Manz adquiriu outra área para instalar o escritório em Oeiras, ali perto.

Ao escavar o solo da chácara de Cheleiros para erguer a residência da família, encontrou ruínas com mais de 700 anos. Recuperou as velhas construções e deu início a um projeto de preservação da história local, que inclui atualmente uma casa de exposições e museu.

E onde entra o vinho na vida de André Manz? Tempos depois de mudar-se, uma senhora colocou à venda um pequeno vinhedo em Cheleiros, meio abandonado com a morte do marido. Apaixonado pela bebida, o empresário comprou as terras. Queria fazer algum vinho caseiro, mesmo sem entender nada do assunto. Aprendeu com agricultores vizinhos e cuidava da vinha nos finais de semana. Tudo ficou mais fácil quando passou a contar com a ajuda do enólogo Ricardo Noronha e do engenheiro agrônomo César Gomes.

A primeira vindima foi em 2007

No meio das castas tintas de João de Santarém (Castelão), havia uns 200 pés de uma uva branca cujo nome ninguém sabia. Os mais velhos a chamavam de Jean Paul, Jampaul ou até João Paulo. Os consultores achavam a parcela inútil e sugeriram a Manz arrancá-la e substituir por tintas. Ele resistiu.

Fez a primeira vindima em 2007, produzindo 1.500 litros de tinto e 200 litros de um branco que surpreendeu pelo aroma, estrutura e sensação de amanteigado natural. Manz o mostrava aos amigos e o levava aos congressos de Fitness a que comparecia – e se encantava com os elogios ao vinho.

Para desfazer o mistério, recorreu a um instituto oficial, que recomendou o caso ao conhecido professor Eiras Dias. Ao visitar o vinhedo, o ampelógrafo constatou tratar-se da Jampal, casta branca que se julgava extinta em Portugal. Cheleiros teve tradição vinícola no passado, deixada de lado nos tempos modernos. Manz renovou esta vocação.

André Manz e seus vinhos

Mas o produtor novato logo se viu diante de um dilema: os custos aumentavam e, para o negócio ser viável, a família deveria investir mais e crescer. Manz adquiriu pequenos parreirais, assinou contratos com viticultores do Douro e da Península de Setúbal e moldou a ManzWine atual, que tem 14 hectares de vinhas próprias. Em 2012 inaugurou nova adega, implantada na antiga escola primária da vila, bem no coração de Cheleiros, totalmente recuperada e transformada no Lugar do Vinho, aberto à visitação. Produz 150 mil litros por ano e tem capacidade para 500 mil.

A vinícola oferece tintos bem feitos, como o Penedo do Lexim 2015 (R$ 55), Platônico 2014 (R$ 65), Contador de Histórias 2011 (Península de Setúbal – R$ 62), a linha Pomar do Espírito Santo e o top Manz Douro Reserva 2013 (R$ 350). Isto sem abandonar a Jampal. Manz multiplicou a área ocupada com a casta, por meio de enxertos das plantas originais, e faz sucesso com o branco Dona Fátima –  nome da sogra, dado ao vinho, brinca ele, por causa da acidez! Segundo o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária português, a vinícola é a única do país com uma vinha certificada desta casta e a única do mundo a produzir um vinho 100% Jampal.

 

Manz Dona Fátima Jampal 2015

ManzWine – Lisboa – Portugal – Lusitanusbrands – R$ 140 – Nota 91

O branco produzido com a rara Jampal, afinado por seis meses em barricas de carvalho francês, é delicado, mas com boa estrutura e bastante seco. Os aromas trazem notas florais, algo de erva-doce, em base de frutas cítricas e de pêssego. Na boca é untuoso, amplo e se destaca pela acidez vibrante, que limpa as papilas e dá frescor. Um vinho diferenciado e prazeroso, com um toque mineral (12,5%).

 

Manz Pomar do Espírito Santo Reserva 2013

ManzWine – Lisboa – Portugal – Lusitanusbrands – R$ 170 – Nota 92

Tinto maduro e macio, elaborado com as castas portuguesas Touriga Nacional, Aragonez e Castelão, que estagia por 12 meses em barricas de carvalho francês de 1º e 2º uso, com topos de carvalho americano. Lembra nos aromas ameixa e cassis, em meio a notas de especiarias e tabaco. Tem bom corpo, é estruturado, com taninos finos, acidez agradável, final longo e equilíbrio. Um vinho de nível superior, só produzido em anos especiais (14%).

 

 

 

 


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