Vinícolas brasileiras buscam alternativas para enfrentar os desafios da pandemia e das forças da natureza

Vinícolas brasileiras buscam alternativas para enfrentar os desafios da pandemia e das forças da natureza

Villaggio Grando: destruição pelo ciclone

A safra de 2020 é considerada uma das melhores de sempre para o vinho brasileiro. Tudo deu certo e o clima foi perfeito do começo ao fim do ciclo das uvas. Só não deu para comemorar ainda, por causa da pandemia do coronavírus, do isolamento social, redução na economia e adversidades climáticas que vieram depois.

Como toda a sociedade e o conjunto das empresas brasileiras, as vinícolas nacionais buscam alternativas para sobreviver nesses tempos de Covid 19. A maioria dos produtores reforçou o comércio eletrônico. Apesar dos problemas, o setor acabou tendo um bom desempenho nos primeiros meses do ano – levantamentos indicam crescimento nas vendas, em relação ao mesmo período de 2019.

Mas algumas vinícolas, além da queda na comercialização, sofreram com o ciclone bomba que atingiu o Sul do país no final de junho e precisam de esforço extra. É o caso da Villaggio Grando, de Santa Catarina, bastante prejudicada pelo vendaval. A vinícola faz campanha para levantamento de recursos com a venda antecipada de um tinto elaborado especialmente com esta finalidade.

Situada no município de Água Doce, no Oeste catarinense, a Villaggio Grando estava no caminho do ciclone extratropical que devastou a região no dia 30 de junho. As rajadas de vento, com mais de 120 km/h, destruíram o prédio principal da empresa, utilizado para receber os visitantes, para a degustação de seus vinhos e abrigar o varejo interno.

Segundo o diretor Guilherme Grando, ninguém se feriu, houve somente perdas materiais. É mais um desafio, que se soma às dificuldades deixadas pela pandemia. Como todas as empresas do setor, há meses a vinícola não pode contar com seu maior canal de comercialização, os restaurantes, fechados por decreto na maior parte das cidades do país.

O Cabernet Franc especial

Para superar as adversidades, a Villaggio Grando está fazendo o lançamento antecipado de um Cabernet Franc da safra de 2018, que estava amadurecendo por 12 meses em barricas de carvalho francês. O nome do tinto é expressivo do momento: Reerguida. Serão apenas 2 mil garrafas, que devem ser entregues aos compradores em setembro. Cada uma custa R$ 125 no site da empresa (www.villaggiogrando.com.br) e o valor arrecadado será usado na reconstrução do espaço. Até o novo salão ficar pronto, a vinícola vai receber os visitantes em um local provisório na bela fazenda em que se situa.

A Villaggio Grando foi criada em 1998 por Maurício Carlos Grando, dono de uma grande madeireira na cidade de Caçador, ali perto, e de outros negócios no Estado. Maurício havia levado um cliente francês para conhecer sua fazenda em Água Doce, no distrito de Herciliópolis, no Vale do Contestado, e ouviu dele que as terras tinham potencial para produzir vinhos de qualidade.

Com ajuda de outro francês, o enólogo Jean Pierre Rosier, radicado na Serra Catarinense, Grando plantou diferentes variedades de uva, com mudas trazidas da França, para analisar as que mais bem se adaptavam ao terroir. Em 2000, por fim, foram consolidados os vinhedos, a uma altitude de 1.329 m. O solo, com boas características, e o clima local, com estações bem definidas e grande amplitude térmica, confirmaram o acerto do novo projeto.

Os primeiros vinhos foram apresentados em 2005. Em 2009 a família Grando passou a contar com a assessoria do renomado enólogo português António Saramago. Hoje, sob o comando de Guilherme Grando, filho de Maurício, a empresa tem 43 hectares plantados e produz cerca de 180 mil garrafas de vinho por ano. A Villaggio Grando faz parte do grupo que produz os chamados Vinhos de Altitude de Santa Catarina.

 

Adote uma videira

Com o nome na parreira

Já a pequena e bem cuidada vinícola paranaense Legado, situada em Campo Largo, a apenas 30 km de Curitiba, enfrenta a pandemia com uma campanha criativa. A partir de um clube de assinaturas, propõe ao consumidor amigo: “Adote uma videira”. Heloise Merolli, sócia-proprietária da empresa, justifica: “As videiras são plantas perenes que produzem apenas uma vez por ano, mas precisam ser cuidadas o ano inteiro”.

Os interessados em participar da campanha devem contribuir com um valor mensal, que varia de R$ 110 a R$ 175, com direito a ver seu nome em uma placa colocada na parreira de uma uva favorita, que pode ser Cabernet Sauvignon, Viognier, Merlot, Pinot Noir, Chardonnay ou Alvarinho. Além de batizar uma videira, o participante receberá em sua casa mensalmente dois produtos da vinícola Legado (vinho ou espumante) e uma videoaula sobre o preparo de uma receita harmonizada com os rótulos selecionados.

O clube, iniciado em junho, vai durar até novembro deste ano.  Pela data prevista de entrega mensal o dia de corte para a assinatura é dia 20 de cada mês. Portanto quem assinar até 20 de julho receberá 5 meses, se assinar até 20 de agosto receberá por 4 meses e assim por diante. Maiores informações podem ser obtidas no site da vinícola – www.vinicolalegado.com.br.

A Legado surgiu em 1998, a partir de 200 pés de Cabernet Sauvignon, importados da França. A vinha foi plantada em terreno a 1.040 m acima do nível do mar, em uma propriedade que mantém diversas áreas de mata nativa preservada e recuperada, com grande biodiversidade. A vinícola produz 15 mil garrafas de vinho por ano.

 

Crescimento na pandemia

Apesar dos problemas, o setor vinícola nacional, como um todo, está conseguindo manter bom desempenho durante a pandemia. Certamente, porque o vinho se tornou um bom companheiro de quem está respeitando o isolamento social e passa a quarentena fechado em casa.

A ABS-RS (a seção gaúcha da Associação Brasileira de Sommeliers), presidida pelo jornalista Orestes de Andrade Jr., analisou os dados compilados pela Uvibra (Associação Brasileira de Vitivinicultura) e concluiu que as vendas de vinho nacional aumentaram 39% nos quatro primeiros meses de 2020, em relação ao mesmo período do ano passado.

As vinícolas tiveram que se reiventar por causa do coronavírus e a maioria agiu rápido. Quem não fazia comércio on-line, passou a fazê-lo. As vinícolas que já contavam com o comércio digital deram ainda mais atenção ao serviço. É o caso, por exemplo, da Pizzato, no Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha. Flávio Pizzato, o enólogo da casa, contou que a família reforçou a equipe dedicada ao atendimento digital e redobrou o cuidado com a entrega dos pedidos.

Os grandes grupos informam que vão bem. A Vinícola Aurora, cooperativa que reúne perto de 1.100 agricultores associados, ressalta que teve aumento de 60% nas vendas on-line nesse período. Na Cooperativa Garibaldi o comércio digital teve crescimento de 15%.

A direção da Miolo também destaca o desempenho decisivo do comércio on-line em meio à pandemia. Segundo a empresa, suas vendas pela Internet aumentaram 52% em março e 62% em abril, se comparadas aos mesmos meses de 2019. É importante notar, porém, que isso não aconteceu da noite para o dia – a Miolo já mantém loja virtual há oito anos.

Tudo indica que a comercialização on-line só tende a crescer. Pode ser também uma boa alternativa para os pequenos produtores, os que têm mais dificuldade para montar canais convencionais de distribuição. Produtos de qualidade para isso não faltam. As vinícolas nacionais tiveram duas safras excepcionais nos últimos anos. Primeiro veio a de 2018, cujos vinhos já estão chegando ao mercado. Para coroar, a década se completa com esta de 2020, que promete ser lendária.

 

 

 



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